“A montagem como actividade invisível”

21:58:00 Cinema's Challenge 5 Comments

João Braz, editor de filmes, explica-nos em que consiste a sua profissão e fala-nos dos diversos projectos em que já colaborou

Com mais de 18 anos de experiência em edição, João Braz continua ainda hoje envolvido em vários projectos, quer de cinema, quer de televisão, de grande importância no panorama português. Filmes populares como “Kiss Me”,”Alice”, “O Crime do Padre Amaro”, “O Contrato”, “Como desenhar um círculo prefeito” e o “Filme do Desassossego” constam no seu currículo. Mas não foi apenas na edição que trabalhou, também a escrita e realização foram outrora merecedoras da sua atenção com o seu primeiro projecto, uma curta-metragem, "Mergulho no Ano Novo".


1-O que o levou a querer ser editor? Está relacionado com a sua paixão pelo cinema?
De início, fui tirar o curso de cinema da ESTC – Escola Superior de Teatro e Cinema -, que funcionava no conservatório, por gostar do ambiente artístico da escola. Porém, não tinha um interesse específico em cinema na altura, mas pareceu-me um curso que eu poderia frequentar mais facilmente do que representação ou música. E assim aconteceu. Mais tarde, quando entrei no mundo do trabalho, acabei por começar a laborar como estagiário na "Caixa" de Manoel de Oliveira. E foi a partir daí que iniciei como editor a minha profissão, há 18 anos, que ainda hoje continuo a adorar. Por isso, quando agarro um novo projecto, início cada novo filme como se fosse o primeiro.
A escolha da função de editor tem uma explicação também. Ora bem, diz-se que a montagem é a única verdadeira invenção do Cinema e está no centro das principais decisões criativas do filme. É uma função muito rica, onde se tomam milhares de deliberações, como por exemplo: escolher qual a melhor take de um actor, onde se fazem os cortes dos planos, que raccors são importantes, ou outras mais profundas, como mudar a estrutura toda de um filme ou como desenvolver o ritmo de um filme a partir do modo como se monta um filme.
Como ‘montador’, é fundamental compreender o realizador do filme e os seus objectivos para o filme. Tento sempre colocar-me na sua pele e proporcionar-lhe soluções de acordo com o que acho que ele pretende para o seu projecto. Isto não me impede, todavia, de ser objectivo na avaliação do material, mas tento-o fazer sempre olhando para esse material como se o fizesse pelos seus olhos [do realizador]. Ninguém faz uma boa montagem contra ou ignorando o que o realizador pretende, nem contra o material que foi filmado. Devemos sempre seguir o caminho que esse material nos indica.
Já fiz montagens muito diferentes entre si, de realizadores completamente opostos em termos formais, narrativos e pessoais, no entanto esforço-me sempre por tentar estar o mais próximo das suas ideias, dos seus interesses e receios em relação ao seu filme. Em suma, é a maior satisfação desta profissão sentir que contribuímos decisivamente para fazer o filme que o realizador desejava.

"Ninguém faz uma boa montagem contra ou ignorando o que o realizador pretende, nem contra o material que foi filmado"

2 - O seu primeiro trabalho foi, curiosamente, em 92 com a curta "Mergulho no ano novo", não como editor, mas, sim, realizador, como surgiu este desafio?
Na escola de Cinema tinha oportunidade de realizar alguns filmes e esta foi a melhor oportunidade e altura para aprender."Mergulho no Ano Novo" foi assim um filme extra-curricular em 16mm da Escola de Cinema que co-realizei com Marco Martins e que ganhou o prémio de melhor curta portuguesa no festival de Vila do Conde.

3 - Quais os trabalhos que considera mais importantes em que se envolveu?
Já fiz mais de cinquenta filmes assim como séries de ficção e publicidade e aprendi muito com todos estes trabalhos. Há alguns filmes que me marcaram mais, mas é difícil distinguir as razões puramente profissionais das afectivas, o que é normal por nos envolvermos durante meses com um projecto e com os realizadores. De qualquer modo, gostaria de destacar os filmes que fiz com o Marco, "Alice" e "Como desenhar um círculo perfeito", tal como os cinco filmes que fiz com o João Canijo entre eles "Ganhar a vida", "Noite escura", "Fantasia Lusitana" e " Sangue do meu sangue", que vai estrear este ano. Ou ainda os filmes que fiz com o João Botelho entre os quais o "Filme do Desassossego".
Mas repito que a maior parte dos restantes filmes que editei foram também muito, muito gratificantes.

4 - Tem em mente mais algum projecto do género?
Penso que não…Gosto muito de editar e não tenho uma vocação de realizador, cuja combinação de talento e determinação tem de ser muito especiais e únicas, mesmo que já tenha tido essa experiência.

5 - A montagem é uma das fases mais importantes e que pode determinar ou não o sucesso de um filme. Visto isto, como descreve a sua profissão comparando com outras dentro do mesmo meio?
Não gostaria de destacar a montagem, apesar de ser uma das áreas onde se tomam mais decisões que contribuem para o resultado final de um filme. Pois, o cinema é uma actividade cujo resultado do trabalho em equipa é extraordinário e que depende essencialmente dele.

6 - Tem algum profissional da sua área que admire em especial?
As pessoas que qualquer editor deve admirar foram aquelas que inventaram a linguagem cinematográfica; realizadores como Griffith, Eisenstein, Vertov ou Godard. Gostaria de referir Dede Allen, que foi a primeira pessoa que teve direito a ter o seu nome sozinho num genérico como editor(a) em "Bonnie and Clyde". E por isso faço as dela minhas palavras para falar sobre a edição: "Editing is like writing with shots. And writers are people who change their ideas all the time. Ideas evolve. They’re not bound by a formula."

7 - Acha que o público percepciona o resultado final do seu trabalho?
A montagem sempre foi conhecida como uma actividade "invisível". Esta classificação tinha dois sentidos, por um lado no cinema clássico a montagem centrava-se em criar a ilusão de que um filme era uma acção contínua, por outro lado é muito difícil avaliar o trabalho de montagem pela simples razão de que espectador não tem acesso ao que era o material filmado antes de ser montado: não pode saber se existiam outras takes, se os cortes podiam ser feitos noutros sítios, se a ordem das cenas era prevista no guião, entre outros aspectos. Sendo assim, para avaliar uma montagem era necessário conhecer o que [já] não está lá. Claro que podemos sempre avaliar alguns sinais como o ritmo, os raccords, mas não é um trabalho tão fácil de apreciar como espectador tal como é a fotografia ou a representação.

"No cinema não existe uma carreira como em outras profissões, o nosso percurso somos nós que fazemos pelas escolhas e oportunidades que temos e esse percurso irá ser sempre único."

8 - Entre o cinema e a televisão, qual achou o formato mais gratificante? Normalmente gosto mais dos filmes, mas fiz séries de tv que gostei muito como "Bocage","O dia do regicídio" ou "Republica". Fiz também muitos filmes publicitários que gostei muito de montar, por exemplo:
E, por tudo isto, mesmo existindo preferências pessoais, penso que é importante encararmos todos os projectos que temos como os mais importantes da nossa vida profissional, seja o formato que for adoptado.

9 - A entrada no mundo do cinema em Portugal é difícil? Já pensou em rumar para o estrangeiro para continuar a exercer a sua profissão?
Fazem-se muitos poucos filmes em Portugal e toda a actividade audiovisual é escassa para a quantidade de pessoas que querem trabalhar. Tive sempre a sorte de ter trabalho regular, apesar de ter trabalhado fora de Portugal esporadicamente. Porém, penso que é importante termos desafios constantemente e aconselho os mais jovens a não terem receios de procurar fazer filmes em qualquer parte. No cinema não existe uma carreira como em outras profissões, o nosso percurso somos nós que fazemos pelas escolhas e oportunidades que temos e esse percurso irá ser sempre único.

10 - Se pudesse escolher outro cargo relacionado com cinema continuaria a ser o de editor?
Sim. Esta é a profissão que escolhi e que continuo a adorar. Quando não tiver oportunidade para a exercer ou se acordar um dia farto de editar, de certeza que encontrarei outra onde possa contribuir criativamente.

5 comentários:

  1. A montagem sempre foi um dos aspectos que mais me fascinou desde que me comecei a interessar por cinema :)

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  2. Obrigada, David! :)

    Tenho é pena que tenhas sido o único a dar um feedback aqui no blogue.

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  3. No Facebook deixar um comentário é mais fácil e imediato,e também se perde o hábito de comentar no próprio blog onde se lê o artigo, infelizmente

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  4. Olá!
    Eu sou um estudante de cinema. Com licença, vou traduzir esta entrevista para espanhol e vou pôr a entrevista no meu blog, onde tudo tem relação com a montagem.

    O faço sem querer incomodar ninguém; só para compartir com as pessoas que não falam português e aprender deste editor.

    Muito obrigado,
    Pablo.
    http://editorunderconstruction.blogspot.com

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  5. Olá, Andreia.
    Já fiz a tradução. É muito instructiva. Assino sempre, em todas as entrevistas que traduzo, o autor ou autora e o link de a fonte original. Não preocupes disso. Muito obrigado por fazer a entrevista e aqui tens o link: http://editorunderconstruction.blogspot.com/2012/01/joao-braz.html

    Saudações,
    Pablo.

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May the force be with you!