CPO: "Ler 1984 em 2009", por Mário Dorminsky

14:27:00 Cinema's Challenge 0 Comments


Hoje é a estreia de uma nova rubrica neste blogue. O seu nome é "Cinema por Outros", por convidar  a escrever um texto sobre um filme diferentes pessoas, directamente ou indirectamente, ligadas ao mundo do cinema.

O texto de hoje é da autoria de um dos mais conhecidos mentores de cinema na zona norte do país e em geral em Portugal. Mário Dorminsky é os fundador e director do célebre festival de sétima arte português - o FantasPorto. Este apaixonado pelos filmes tem integrado júris de vários festivais de cinema, como é o caso, de um dos mais afamados, o Festival de Cannes.

Além disso, acumulado com diversas formações em outras áreas, tem ainda um curso de Cinema da New York Film Academy. Por isso, é com honra que abrimos este espaço com o texto desta personalidade. Um obrigada ao mesmo!


Ler 1984 em 2009

Será a literatura, neste caso de uma ficção que esboça um futuro, uma das razões que elevam à genialidade alguns daqueles que escrevem e nos deixam sonhar? George Orwell e o seu extraordinário “1984” escreve logo no início do seu livro com uma frase enigmática e que proporciona as mais diversas leituras: “Aquele que controla o passado, controla o futuro. Aquele que controla o presente, controla o passado”. É também com esta frase que começa um dos mais memoráveis filmes que foi exibido em 1985 no Festival Internacional de Cinema do Porto, uma adaptação para cinema do livro de George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, e realizada pelo britânico Michael Radford.

George Orwell não pode ser considerado nada menos do que um grande visionário. O escritor britânico alertava no final da Segunda Guerra Mundial para o que se aproximava: Poder, corrupção, terrorismo, sociedades totalitárias… o “Big Brother” pode ter sido inspirado em homens como Hitler, mas chega muito mais longe, tanto que em 2009, 60 anos depois de ter escrito a obra, ela está mais actual que nunca. Orwell apresenta um interessante conceito para a definição da guerra: diz o autor que a guerra não tem como objectivo vencer o inimigo ou lutar por uma causa, antes pretende manter o poder das classes altas da sociedade, limitando o acesso à educação, cultura e bens materiais.

Nascido na Índia a 25 de Junho de 1903, Orwell foi para Inglaterra, ainda não tinha um ano de idade. Com uma educação burguesa, cedo descobriu que queria ser escritor. Usou a sua arma favorita, a caneta, para denunciar um futuro demasiado realista.

“Mil Noventos e Oitenta e Quatro” foi escrito em 1948. Três anos antes tinha dado à estampa outro fabuloso romance de seu nome“O Triunfo dos Porcos”. Tal como “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, “O Triunfo dos Porcos” é uma metáfora sobre a sociedade moderna e a política.

Curioso é verificar que expressões como “Big Brother” são agora banais graças à utilização do num deplorável concurso televisivo que foi exibido em diversos países. Aí é-nos prometida “a vida real como ela é”. No entanto, a essência do programa em questão, está na obra que Orwell escreveu, sendo a frase “Big Brother is Watching You” retirada da publicidade que inundou Londres aquando do lançamento do livro no final dos anos 40.

trailer do filme
“Mil Novencentos e Oitenta e quatro” é a par de romances como “Laranja Mecânica”, ”Admirável Mundo Novo” ou “Fahrenheit 451”, um dos livros mais citados em todo o mundo.
Depois de um Apocalipse, o mundo está divido em três partes, a Oceania, a Eurásia e a Lestásia. Londres é a capital da Oceania. É retratada uma sociedade totalitária onde o Estado é omnipresente tendo a capacidade de alterar o curso da história, bem como travar uma guerra sem fim, para que o seu objectivo não se altere, o controlo total de uma sociedade.
Como em grande parte das mais inebriantes histórias, o amor é o motor de tudo. Um funcionário do Ministério da Verdade da Oceania vai revoltar-se contra o sistema, por causa do seu amor por Julia. Sob a alçada do regime totalitário do “Big Brother”, Winston Smith trabalha no serviço de rectificação de notícias já publicadas. Winston reescreve a história do jornal “The Times” de acordo com as crenças do regime. Sem saber explicar o que lhe passa, Winston vai-se apaixonando por Júlia, uma colega de trabalho. Num mundo onde o sexo só é permitido para efeitos de procriação, a vida do casal vai ser difícil. Na sua rebelião, vai ser ajudado por O’Brien, um membro do “Partido Interno”. Winston acaba por descobrir que é o próprio partido no poder a fomentar a rebelião, para que o homem se aperceba das suas limitações.
O filme quer Radford adaptou do livro reescrevendo o guião não consegue atingir a excelência desta metáfora de Orwell sobre a sociedade, mas também quantos filmes conseguem chegar aos calcanhares das obras em que se baseiam? Talvez “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick seja um filme à altura do livro de Anthony Burguess. Mas, é sempre desleal comparar o livro com o filme. “1984” marca quem o lê… ou quem o pode ver no cinema. E, no fim de contas, a literatura é criatividade e deslumbramento. E tal George Orwell oferece em toda a sua obra e, em particular nesta, daquela que é considerada uma das obras primas da literatura do último século…”1984”. E atenção “Big Brother is watching you”.

Por Mário Dorminsky

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