CRÍTICA: Dallas Buyers Club (2013)

22:19:00 Cinema's Challenge 0 Comments


[As seguintes linhas contém SPOILERS]

Do Texas, com amor, chega-nos, mais uma vez - todavia desta a relembrar papéis mais antigos - ,  Matthew McConaughey que agarra com unhas e dentes (ou de corpo e alma dado as já repetidas transformações físicas) a sua personagem em Dallas Buyers Club. Lembram-se dele em Dazed and Confused? A Time to Kill? Lone Star? Ou o já contemporâneo filme de Friedkin, Killer Joe? Bem, no novo filme de Jean-Marc Vallée (conhecido por filmes como C.R.A.Z.Y, The Young Victoria e Café de Flore) podemos encontrar uma personagem com esta mesma intensidade, num registo algo dramático, mesmo que não assuma o papel de vítima, como seria de esperar dado o tema (como acontece em Philadelphia, com Tom Hanks), optando antes por um olhar mais sarcástico e frontal.

Dallas Buyers Club remete-nos à ideia real de que não é preciso ser-se homossexual para conhecer, de perto, aquela inimiga crónica designada de Sida. Muito embora, a maioria da comunidade afectada seja gay, tal como evidenciamos no filme, cuja história remonta a 1985, em Dallas, EUA.

Ron Woodroof é o verdadeiro estereótipo de 'cowboy': sexo desenfreado nas boxes; várias mulheres e aventuras sem tabus; muito álcool; drogas q.b; em suma, carpe dien. Até ao dia em que a sua vida muda, ou é obrigada a mudar: Ron é diagnosticado com HIV, depois de sentir-se mal e ser levado ao hospital. Numa primeira fase, a preocupação é pouca. A personagem é apoderada pela ideia de 'isto não pode estar a acontecer comigo'. Luta contra-ela.

Primeiro estado: Negação. Checked. Porém, mais cedo ou mais tarde, não adiantar ignorar, o corpo ressente-se,a mente...tudo. E é aí que a jornada, a luta, todos os esforços de Ron começam a multiplicar-se.

Segundo estado: Aceitação. Primeiro, tenta adquirir um medicamento que é apontado como a nova esperança para os doentes com SIDA. Contudo, não tarda a perceber que mais que ajudar, o seu sistema imunitário está a ser destruído por essa falsa 'solução', credibilizada pela FDA para fazer dinheiro. Convicto de que pode fazer mais, vai ao México. Conhece um ex-doutor que lhe aconselha alguns medicamentos, muito deles à base de vitaminas, que quase por magia prolongam de 30 dias (tempo dado de vida pelo médico americano que lhe diagnostica a doença e colabora com a administração do outro medicamento) para 7 anos o seu tempo de vida. Ao longo desta busca, Ron conhece logo nos primeiros tempos uma personagem algo caricata, Rayon, interpretada brilhantemente por Jared Leto. A mesma tece o laço entre a comunidade homossexual e Ron, que cria uma espécie de 'club', onde se podem fazer sócios, desfrutando, assim, dos mesmos medicamentos que lhe possibilitaram continuar vivo muito além da esperança de vida primordialmente dada pelos médicos...

Terceiro estado: Mudança. Se por um lado esta ligação com a comunidade gay afectada pela SIDA foi em primeiro lugar puramente comercial e egoísta, isso tende a mudar com o desenrolar da narrativa. Quanto mais constata o quão é importante para ele a medicação, mais Ron começa a ter um sentido de solidariedade para com aqueles que estão na mesma situação que ele. E é aqui que o filme consegue assemelhar-se à realidade, uma realidade que não é instantânea, em que evoluímos de acordo com as nossas experiências e, infelizmente, muitas vezes, tragédias pessoais. Neste sentido, acho que é aqui que Dallas Buyers Club ganha pontos a outros filmes que tratam o mesmo tema. A ideia não é provar o quão boa se pode tornar a personagem principal, mas, antes, que a sua perspectiva sobre a vida e estereótipos sobre as pessoas podem mudar. A título de exemplo, se na primeira cena vemos Ron a quase agredir Rayon, a meio do filme, vemos Ron a fazer alguém respeitar o jovem transviado, e já no fim observamos e sentimos a revolta do 'ex -cowboy' por a vida não ter sorrido ao seu já amigo.

Mais do que o sistema ilegal desenvolvido em paralelo com as experiências da FDA em pacientes seropositivos, o filme fala de pessoas. Estas que tendem a esquecer que existe mais do que bondade no mundo; existe interesse e descriminação: desmesurada, irreflectida e irracional, que leva milhares de pessoas à morte.

No entanto, mesmo que a história seja interessante, nem todos os elementos estão bem escolhidos no filme. Menos radiante do que Matthew e Leto, está Jennifer Gardner, o que até nem é de estranhar dada a mediocridade de quase todas as suas prestações na sua filmografia. A ideia de uma médica lutadora, fica um pouco aquém, pois recaímos sobre uma espécie de 'deja vu' de outros papéis da mesma, atirando-a para a pobreza das suas capacidades performativas. Felizmente, um filme não se faz só com um actor, e o resto do cast, que é basicamente o duo masculino McConaughey-Leto, arrasa, levando-nos às lágrimas. Entre gargalhadas - dada a troca de galhardetes entre as duas personagens - , a homofobia é posta de parte, especialmente quando há a capacidade de falar das coisas, problemas e sexualidade de cada um sem tabus. As piadas, essas, são uma espécie de abrir portas à compreensão. São o caminho de passagem encontrado pelo argumentista para levar-nos a viajar pela aceitação da homossexualidade, enquanto heteros. E como resulta! A certa altura encara-mo-nos como o publico que vê com naturalidade tudo o que nos é apresentado, à semelhança do que acontece com o protagonista. Por muito cruel que possa ser, Ron começou verdadeiramente a viver quando percebeu que era humano e tinha os dias contados. Talvez 'Deus' escreva mesmo por linhas tortas, e o sofrimento nos faça vivos, nem que seja por menos tempo, sentimos, abandonando a generalizada apatia do ser, para nos transformar-mos por segundos em Deuses.

Para alguns, Dallas Buyers Club pode ainda ser um filme de difícil digestão. Todavia, acredito que o tratamento do assunto em questão é bem executado, tratando as pessoas da maneira que são no mundo real: sem pieguices (apenas as necessárias), com brutalidade (mostrando um desenvolvimento físico bastante chocante, dada a debilitação, provocada pela doença e drogas, de Ron e Ray), optando por em vez de cruzar os braços, encontrar um novo caminho de sobrevivência e de viver os últimos dias de uma forma mais digna e emocional. Vale a pena ver.

Nota: 7,5/10.

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