«Ant-Man»: o filme que cresce à medida que o herói diminui

18:23:00 Cinema's Challenge 0 Comments


“Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”, disse Neil Armstrong um dia a propósito da chegada do homem à lua. E foi, em termos simplificados, esta a base da estratégia de comunicação e marketing do novo filme da Marvel: «Ant-Man». Só que… Já na sala de cinema, o intento foi ainda mais longe! O filme foi crescendo à medida que a personagem diminuiu; em termos fisionómicos, claro. Não esquecendo, também, a ironia de depois do megalómano «Avengers: Age of Ultron», lembrado pelos musculados e poderosos personagens, surgir a história do menor herói do universo dos quadradinhos, o Homem-Formiga.

O filme começou a medo. Desde os primeiros minutos que é evidente uma certa cautela na apresentação dos vários elementos que compõe a intriga. É de louvar a humildade, inversa à arrogância de certos filmes como foi o caso de «Man of Steel» (da DC) e que resultou na desilusão. Percebemos que em «Ant-Man» optou-se por uma produção mais modesta e contida, bastante diferente até dos restantes filmes irmãos. No entanto, isso não é sinónimo de que o resultado tenha sido negativo, ou muito menor.

A adição de uma nova personagem e respetivo mundo ao universo Marvel-Disney nem sempre é uma tarefa simples. No entanto, como temos evidenciado, são poucas as missões que nos últimos anos têm falhado. É imperativo assinalar, antes de tudo, que Ant-Man é um super-herói que tem sérias dificuldades de ser levado a sério por um público menos conhecedor da sua estória original (pelo menos de forma tão eficaz como os outros já introduzidos ao público por intermédio da tela, que fazem mais uso do seu poder físico do que intelectual), sem uma introdução conveniente e faseada, que nos deixe respirar, digerir e transportar para a sua “realidade”. Numa adaptação rigorosa, dos quadradinhos para o live action, é complicado receber de braços abertos um herói que tem superpoderes análogos aos de uma figura tão amigável e indefesa como uma formiga, nomeadamente o tamanho, habilidade de trabalhar em equipa com as demais da espécie e capacidade de carregar algo 100 vezes mais pesada do que o seu peso. Mas não se deixem desanimar. A procura de uma abordagem apropriada e um elenco certo podem fazer maravilhas. E foi essa a aposta. Mais do que a receita global de entretenimento vs. emotividade, é indiscutível a sensibilidade demonstrada em assegurar a produção de um filme digno, através do qual mais um super é integrado na grande família de Avengers, indireta ou diretamente (neste caso), conquistando um lugar único junto do coração do público. É importante mencionar que o Ant-Man foi, para quem não sabe, nos anos 60, um dos super-heróis fundadores do grupo de Vingadores, pelo que a sua importância para a continuação da trama global é gigantesca! Mas voltando ao tema de personagens com difícil adaptação ao grande formato, recordo o que aconteceu no filme «Guardians of Galaxy», produto que resultou na perfeição desde o primeiro minuto de exibição, tendo um enorme sucesso face ao esperado, ao mesmo tempo que nos envolveu num novo mundo único, alucinante e alienado abrindo-nos a mente para aquilo que até então desconhecíamos, tendo à semelhança do Homem-Formiga antes do seu sucesso levantado alguns medos desde o momento em que foi anunciado em público.



Voltando ao filme propriamente dito, constatamos que a personagem não é unidimensional, nem o seu mundo; o que é um ponto bastante positivo, todavia é uma faca de dois gumes quando o tempo não é muito. Começa como uma história de origem de Hank Pym, depois com uma da personagem de Scott Lang antes de se tornar o Ant-Man, posterior a isto passa para a sua vida familiar, que de alguma forma se cruza e influencia a sua transformação em super-herói, implementando ainda mais uma dimensão para além da Terra, espaço, realidades paralelas e dos planetas dos respetivos heróis Marvel, uma dimensão microscópica e totalmente desconhecida para o homem! Por ser necessária tantas informações introdutórias, de alguma forma é essa a causa do primeiro ato do filme ser menor em qualidade e ritmo, não fluindo de forma natural e dando a sensação de empate até se chegar ao que o público quer mesmo ver. Felizmente, depois da criação do envolvimento crucial, a viagem corre às mil maravilhas. Os pontos altos do filme são muitos. Um humor peculiar e inteligente, um elenco escolhido a dedo que conta com caras bem conhecidas como Paul Rudd (Ant-Man/Scott Lang), Michael Douglas (Dr. Hank Pym) e Evangeline Lilly (Hope van Dyne/Pym), os comparsas ex-prisioneiros de Scott Lang, a personalização das formigas, o visual do micromundo dos insectos, as várias referências aos outros super- heróis/subuniversos, a presença já de praxe de Stan Lee e muita muita ação!

Assim, «Ant-Man», apesar das dificuldades em arrancar, caracterizadas por uma primeira parte algo desequilibrada, povoada por excesso de informação ou momentos mais mortos, muitas vezes enaltecidos com a dificuldade em encontrar um tom certo para o humor e intervenção das diversas personagens, conseguiu na segunda-parte recuperar admiravelmente e redimir-se na memória do público. Tamanha foi a melhoria, que o segundo ato valeu quase por dois em qualidade, tendo passado num ápice, fazendo-nos ansiar por mais, tanto que foi difícil descolar do assento mesmo depois do rolar dos créditos finais! Graças ao humor de qualidade e ação possante, «Ant-Man» achou o seu ritmo e personalidade, culminando assim numa promessa da personagem mais profunda, que poderá vir a juntar-se a um filme coletivo, daqueles que tanto adoramos (acho que não preciso dizer o nome, nem explicar o porquê desta insinuação). Para além disso, como já é habitual, tivemos o brinde final, dois clipes com pistas daquilo que nos espera na sequela, bem como nos próximos Avengers ou Capitão América. Uma “maldade” que sabe sempre tão bem e uma impressionante forma de marketing! É difícil não aplaudir.


«Ant-Man» é a prova de que a Marvel não depende só de grandes e populares heróis. Vive também dos mais desconhecidos, ou pequenos em escala, que, tal como este, podem revelar-se uma grande aposta!


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