«May the force be with you» foi provavelmente o mantra adotado por J.J. Abrams quando abraçou o desafio, ou sonho de infância enquanto fanboy declarado, que daria origem, 10 anos depois de ter sido lançado «Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith» (o terceiro e último capítulo da "nova" trilogia; e menos mau, onde finalmente o lado negro da força prevalece), ao sétimo filme da saga mais popular e amada da história de cinema de sci-fi: «Star Wars: The Force Awakens».
As prequelas (I, II e III), e até à chegada deste novo episódio os mais recentes filmes da saga, foram para a maioria dos fãs da trilogia original (IV, V e VI) uma grande desilusão. Os excessos de George Lucas vislumbrado na altura pelas possibilidades infinitas (tendo em conta a época) de uso de CGI nos seus novos trigémeos fizeram com que 90% dos visuais fossem green screen, posteriormente completados com efeitos especiais digitais. Desde um número incontável de novas criaturas, com aspectos que hoje em dia podemos ver superiorizados quer na animação ou em videojogos, bem como a substituição de personagens míticas da saga original, como foi o casa do Yoda, tudo "sofreu" com o toque de Lucas, que, infelizmente, na altura não foi sinónimo de qualidade, mas, sim , de destruição. Muito porque em prol dos visuais trabalhados - que certamente foram revolucionários para a altura principalmente pelo lançamento de obras como «Jurassic Park» e ao olhar de muitos funcionou como se de magia se tratasse, talvez a mesma sensação tida pelo homem quando viu pela primeira vez o fogo -, sofreu o argumento, cuja história demorava a desenvolver-se, com diálogos bacocos de parca qualidade (relembro as cenas românticas entre Anakin e Padmé) e fracas prestações dos protagonistas como Natalie Portman e Hayden Christensen. Aos olhos das possibilidades que hoje temos em mãos relativamente à aplicação adequada e pensada do CGI balançado com um bom argumento e ao envelhecimento de qualidade da trilogia original mais antiga em idade (iniciada em 1977 e terminada em 1983), percebemos como as prequelas erraram e onde George Lucas foi longe demais. Tudo isto, para explicar o porquê do sétimo e mais recente filme ser uma lufada de ar fresco no que toca a equilíbrio para os seguidores da saga, que finalmente receberam o seguimento decente que estavam à espera há mais de 30 anos.

A receita utilizada por J. J. Abrams foi simples, mas um risco. Claramente conseguimos perceber que optou por um polir dos excessos de CGI (empregues por Lucas em toda a saga, com resmasterizações que fizeram, e ainda fazem, fãs arrancar cabelos) e fez uma homenagem aos primeiros filmes de «Star Wars» com a utilização de visuais e materiais mais táteis e simplificados, e isso aplicou-se também à conceptualização das criaturas que mesmo não humanas têm texturas e dimensões similares a algo físico. Essa aliança foi a chave para o equilíbrio, pelo menos da parte estética do filme que não deixa de ser complexa de uma forma harmoniosa. As cenas de ação também estão presentes e são intensas, viajando por ambientes fantásticos.
E nesta mesma linha de aprender com os erros do passado, nota-se a o empenho em evitar um filme de ficção cientifica repleto de clichés e diálogos sem qualidade, utilizando um discurso mais elaborado (inteligente e com humor) para envolver o público nesta nova sequela - mais uma vez à semelhança dos filmes originais, mas aprimorado aos tempos de hoje e aos desejos de entretenimento do público.

Ficamos desde cedo com a sensação (boa) de que as novas personagens apresentadas não são uni-dimensionais e que muito haverá para descobrir ao longo do filme (e quiçá nos próximos). Para além disso, temos algo que nas prequelas não existia: química entre as personagens e respectivos atores que lhes dão vida, não havendo uma quebra ou distanciamento entre as duas gerações, mas sim um sentimento de coesão para quem vê como se duas linhas temporais se fundissem dando lugar finalmente ao despertar de uma nova geração e à expansão do universo SW. Os primeiros passos já foram dados com algumas mudanças evidentes. A antiga Aliança Rebelde é agora denominada Resistência que contra-ataca a Primeira Ordem, liderada por um novo aliado membro dos Cavaleiros de Ren que não é um Sith.

A escolha dos novos elementos do elenco também foi um aspeto interessante, que demonstrou cuidado e estratégia por parte do novo realizador. O encabeçamento da personagem feminina (Rey desempenhada pela atriz emergente Daisy Ridley que agarra a personagem com unhas e dentes) como protagonista assenta que nem uma luva na imagem forte que esperamos da próxima jedi, sendo também benéfico desta vez ter na Força uma mulher (algo inteligente da parte do J.J. Abrams, mesmo que isto já constasse dos livros aos quadradinhos da saga, o realizador poderia ter optado por alterar como já aconteceu antes e acontece inclusive no próprio filme que risca, pelo menos para já, a possibilidade de Kylo Ren e Rey serem gémeos e ambos filhos de Leia e Han Solo) que relembra, e homenageia de certa forma, a importância das diversas personagens femininas que desde os primórdios da saga levantaram de forma destemida armas quando necessário (como por exemplo a Padmé ou a Leia) desafiando assim, mesmo com menos tempo da antena, o lado negro da força. É também o sinal dos novos tempos que astutamente foi conciliado com o novo capítulo a seguir para levar ainda mais pessoas ao cinema.

Temos também uma boa interpretação por parte do co-protagonista masculino John Boyega, que interpreta a personagem Finn - um Stormtrooper que decide fugir do exército da Primeira Ordem em busca de liberdade; o facto de terem escolhido um ator preto pode soar tanto como irónico (desculpem se isto soa racista, mas veio-me à cabeça enquanto vi o filme) por fugir do lado negro da força como uma pensada manobra de juntar mais uma minoria (como é o caso da personagem feminina enquanto jedi) e conferir-lhe Força mais um elemento para levantar as hostes do público... Ainda sobre a decisão de Finn abandonar a Ordem, fiquei com a sensação de que este acontecimento não foi apenas um acaso de alguém que percebeu que não queria servir o lado negro da força, mas antes um sinal ou instinto de que o ex-soldado teria alguma ligação (familiar ou passada) ao lado da luz, o que espero que se confirme nos próximos episódios. Todavia, nem tudo pode ser perfeito e uma nova adição (igualmente importante à da personagem de Rey) parece para já ser um erro de casting.

A personagem de Kylo Ren desenvolvida pelo ator Adam Driver pareceu-me muito imatura e pouco sombria. Esperava uma performance mais séria e temível, visualmente mais semelhante ao Darth Vader ou mesmo ao Darth Maul, que perturbasse o público e nos fizesse recear o novo vilão. Porém, a partir do momento em que vemos a personagem a descontrolar-se vezes sem conta, usando o seu lightsaber como se de um brinquedo se tratasse, ou no momento em que se questiona como se fosse um padre e tivesse sido assediado pela Soraia Chaves, quer um quer outro fazem parecer aquele que deveria ser a representação da nova geração do lado negro da Força apenas uma criança birrenta que fugiu da casa dos pais porque não teve a versão mais recente da Playstation. Agora a sério, tive imensa dificuldade de em conseguir levar a sério a personagem, esperava tudo o que já mencionei, incluindo ainda algum sadismo controlado, mas realmente apenas num momento muito exacto que nos faz cortar a respiração e partir o coração (embora eu tivesse dito baixinho no cinema que isso iria acontecer, mas lá no fundo não acreditava que sim) vemos alguma esperança naquele aspirante a vilão. Talvez seja essa a ideia, para conseguirmos gradualmente perceber a evolução de Kylo para mergulhar definitivamente no lado negro da Força. Mas, mesmo assim, esperava mais do que os quase dois metros de altura do ator, ainda com uma postura pouco imponente especialmente em comparação com a antagonista Rey.

Mesmo que não humano, é importante não deixar de mencionar que o novo droide BB8 é irresistível e emocionalmente muito bem conseguido, tendo conquistado seguramente o coração de todos.
O truque do realizar foi também o de embebedar o público com nostalgia, bebida aos (bons) episódios passados, por intermédio das diversas personagens envelhecidas que foi reintroduzindo ao longo das quase três horas de filme. Temos a Princesa Leia, temos a dupla inseparável (e que levamos no coração sempre que falamos de SW) Han Solo e Chewbbaca, temos CPO3, R2D2 e Luke Skywalker (o até então anterior jedi), todos desempenhados pelos atores originais. É uma viagem que realmente para um seguidor da saga não é fácil de digerir emocionalmente sem soltar algumas lágrimas ou pelo menos fazer alguma força para não as soltar.

Depois desta longa viagem alucinante a uma galáxia muito muito distante, percebemos que a inovação-controlada de J.J. Abrams para já foi possivelmente a decisão mais correcta para continuar a saga e iniciar um novo conjunto de filmes, cuja época e história terão de no futuro ser bem mais do que foi introduzido neste sétimo episódio, caso isso não aconteça poderá acontecer um dos maiores pesadelos de um fã de SW: que a anterior trilogia, portanto a prequela, pareça boa! Outras conclusões são que existem histórias ainda por revelar: ligadas à origem de Rey e de Finn; aquilo que realmente terá motivado Kylo Ren a indagar para o lado sombrio interrompendo os seus treinos com Luke para se tornar jedi; e o porquê de Luke ter-se isolado e fugido.
Agora, é de esperar que não sejam deixadas pontas soltas nem plot holes descarados e que o realizador de «Star Trek» tenha capacidades para construir daqui para a frente um renovado universo coeso e bem explorado sem ficar na zona de conforto e colar-se demasiado ao Lucas clássico; principalmente porque ainda não estou totalmente convencida com o trabalho dele enquanto realizador, que além de ter poucos e fracos filmes, ainda hoje me faz lembrar o quanto violadas senti as minhas memórias do filme «E.T.» quando vi a sua "homenagem" caceteira intitulada «Super 8». Ainda a acrescentar, é de que as minhas expectativas para este «Despertar da Força» eram baixas, por isso optei por não ver nenhum dos materiais de divulgação, como trailers, teasers ou diversas notícias lançadas sobre o filme, isso poderá ter contribuído para a boa recepção e olhar limpo aquando da visualização do filme; o que recomendo. Posto isto, mantendo a minha nova praxe, é mais do que certo que verei (pelo menos) também a próxima aventura de modo a apurar de que lado da Força está realmente Abrams. Até 2017!
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