«Nunca existiu uma indústria de cinema em Portugal»

18:17:00 Cinema's Challenge 2 Comments

Luís Filipe Rocha reflecte sobre o papel de realizador no contexto actual do cinema português

Fazer cinema em Portugal nunca foi fácil, como reiterou o autor do filme «A Outra Margem», mas o cineasta acredita que para inverter a situação, é “necessário haver maior literacia e formação” para as artes desde cedo. Adianta ainda que a relação entre os espectadores e o cinema português está “envenenada por preconceitos e ideias feitas” e que o cinema americano piora essa tendência.
Luís Filipe Rocha falou também do papel de realizador de cinema português e do apoio do Estado à sétima arte, que considera “absolutamente vital”.


Como define o seu papel de realizador de cinema em Portugal?
Digamos que não será muito diferente daquilo que outros realizadores, portugueses ou não, pensaram. No meu caso fui, também, sempre autor e realizador de todos os meus filmes e, por isso, fui variando muito ao longo dos anos. Numa primeira fase da minha vida como realizador de cinema, posso dizer que a história, a cultura e até a literatura portuguesa tiveram um papel importante, porém, progressivamente, fui depois fazendo filmes com preocupações mais pessoais e menos enquadrados numa história ou cultura portuguesa; mais universais e menos restritas a uma realidade única.
“Camarate”, um filme que eu rodo em 2000 e que só pode ser entendido dentro do contexto nacional, assim como “A Outra Margem”, são histórias alimentadas pelo lugar onde têm origem, por Portugal, mas em que a temática é universal. E, portanto, vejo hoje o meu papel como realizador em Portugal de facto, por um lado, recebendo e tentando devolver uma espécie de corrente de imagens, de situações e de motivações que têm a ver com o aqui e agora de Portugal, mas, ao mesmo tempo, também como autor que, sempre que pode, tenta aprofundar e descobrir novos temas, ou assuntos que já tratou, para os tentar perceber melhor. E, nesse sentido, posso não ser tão motivado ou direccionado para a realidade portuguesa embora ela esteja sempre presente nos meus filmes.

Como caracteriza a recepção dos filmes portugueses pelo público português? A adesão é boa ou má?
Tem variado bastante ao longo dos anos. É uma questão sempre, no meu entender, envenenada por preconceitos e ideias feitas de tudo e de todos: o suposto desinteresse do público pelo cinema português e o suposto adiamento de interesse dos cineastas portugueses pelo seu público.
Eu diria que o cinema português nunca foi como o espanhol ou o francês, que têm particular implementação de comunicação com o seu público nacional. Com certeza que há outras razões para o caso do nosso país ,mas, para mim, a principal é que nunca existiu uma indústria de cinema em Portugal, e ela nunca poderá existir porque é necessário existir primeiro um mercado; ele não existe nem vai existir porque quantitativamente não é possível e aquilo que poderia ser um bom mercado – os países de língua portuguesa – não é explorado. Não havendo mercado, não há indústria e, logo, não há a tal comunicação permanente com os públicos, que existe noutros países europeus.
Ultimamente existem filmes com um alto nível de receitas, mas isso deve-se ao seu carácter comercial, aos quais se chama falsamente cinema. Eu diria que há esse divórcio entre o cinema de sucesso e o cinema como produto comercial que se deve à inexistência dessa indústria e mercado.
Não existem mecanismos de promoção dos filmes, e isso leva a que o reconhecimento obtido nos festivais estrangeiros não corresponda ao reconhecimento cá. Isto faz com que o público não vá ao cinema ver os filmes portugueses, porque acaba por não ter conhecimento deles como tem das películas americanas.

“Hoje o público não vê cinema português assim como não vê mais nenhum tipo a não ser o americano. E dentro do cinema americano, para piorar a situação, vê apenas o mainstream, o mais comercial e vendido; muitas vezes o menos interessante.”


Do ponto de vista pessoal e profissional, desde que começou a fazer cinema, a adesão das pessoas alterou-se de alguma forma?
Sim, sem dúvida. Comecei a fazer cinema em meados dos anos 70,a seguir ao 25 de Abril, e diria que, até ao final dos anos 90, havia uma arte popular vocacionada para grandes massas. E por parte dos públicos havia apetência, interesse, curiosidade e até culto por filmes, cineastas e por cinematografia: havia uma cultura cinematográfica. Com a democratização do acesso, a multiplicação das salas, os formatos alternativos das televisões e dos dvd’s, em Portugal, a sala de cinema passou a ser um local de encontro para o puro entretenimento característico do cinema comercial e industrial.
Comparando com há 30 anos, o cinema de autor e o culto pela cinematografia desapareceu. Hoje em dia, existe um núcleo duro constituído pelas grandes produções americanas que ocupa as 400 ou 500 salas que existem em Portugal: a vertente cívica do cinema não existe.
Como profissional da área, que tipo de apoios recebe para fazer filmes? Considera-os suficientes?
A nível de apoios privados é muito raro. Às vezes, acontece através de algumas marcas que nos emprestam materiais como carros ou outro tipo de produtos.
Em termos de apoios, o do Estado é absolutamente vital para o cinema, sem ele não se pode fazer filmes em Portugal, tal como disse há pouco: não havendo mercados, não há indústria nem financiadores.
Para um filme português de um milhão de euros conseguir lucro, teria de fazer os números quase históricos que o filme “Titanic” fez na nossa bilheteira.
É necessário salientar que o dinheiro de apoio ao cinema português veio desde sempre de impostos adicionais - taxa do audiovisual - , que, na realidade, é o Estado que financia. Mas é também o Estado que tem de perceber se o cinema desempenha mesmo uma função do ponto de vista do serviço público.

Como disse, o cinema português não está bem. O que é necessário mudar?
Há que melhorar a educação e formação num sentido global. Nós somos um povo muito ignorante e egoísta, infelizmente, e isso só nos prejudica.

"É necessário haver maior literacia e formação para avaliar o cinema em geral.Seria necessário um conjunto de mudanças das práticas culturais e cívicas do
povo português."

Às vezes, o produtor Paulo Branco diz-me que não há interesse por parte do público e que é urgente fomentar a ida às salas de cinema para ver filmes em português se não isto vai acabar mal. É decisivo que haja uma formação do que é cultura, arte, que não existe nas escolas portuguesas e que levaria à criação de novos públicos não só para o cinema, mas, também, para toda a produção artística em geral.

Nota: Entrevista realizada em 2010 para trabalho académico para o meu blogue Em Cena.

2 comentários:

  1. Gostei da entrevista. Fiquei mais por dentro do mercado cinematográfico português de hoje.
    Abraços,

    O Falcão Maltês

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  2. Obrigada. Em breve vou publicar mais algumas que já tenho em projecto. Fica atento.Já agora belo blogue o teu, vou acrescentar no meu blogroll. Sê bem-vindo ao meu espaço :)!

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