CPO: "Funny Face", por Francisco Valente

13:23:00 Cinema's Challenge 1 Comments


E é com grande prazer que hoje publico este texto, tanto pela pelo autor como pelo filme, onde figura uma grande diva, uma das minhas preferidas, friso, a eterna Audrey Hepburn, Funny Face, de Stanley Donen.
O autor deste texto, Francisco Valente, nasceu em 1983, em Lisboa, e é colaborador do jornal Público, onde escreve sobre cinema e outras áreas artísticas. O seu trabalho encontra-se também publicado no seu site www.dacasaamarela.com


Em Funny Face (1957) de Stanley Donen, a personagem de Audrey Hepburn (Jo) é uma jovem rapariga que trabalha numa livraria velha e escondida de Greenwich Village. Os seus pensamentos, uma distracção para dias dedicados a arrumar velhos livros em velhas prateleiras, são ocupados por teorias e filosofias do amor - o “empatismo”, corrente parisiense das relações humanas (um piscar de olho às novas correntes de ideias existencialistas que vinham da Europa) -, algo tão pensado que dificilmente encontra tradução para o pragmatismo das relações na vida real. E assim a sua personagem vive sozinha com ideias felizes, mas solitárias.

De repente, entra uma equipa inteira de produção pelo seu estabelecimento. Pessoas, luzes, câmaras, acção: um batalhão de modelos, técnicos e um fotógrafo que “assaltam” um cenário em busca da fotografia perfeita para a próxima edição da sua revista de moda. Essas revistas, um pouco como o cinema, vendem sonhos para os leitores que compram as suas imagens. E o seu fotógrafo, aquele que as faz, descobre uma “funny face”. Jo acaba mesmo por entrar nas suas fotografias, comprometendo as ideias e princípios em que tanto pensa para, finalmente, vender-se ao artifício, à fabricação de uma imagem que vende um corpo, um cenário e as suas cores como ficção, como um pedaço de ilusão.


Quase com a mesma velocidade com que ali entraram, o batalhão de sonhos sai da livraria, agora irreconhecível, e Jo permanece de novo só. Mas uma coisa mudou: Jo sentiu-se num outro mundo, num enquadramento que lhe deu uma hipótese de fantasia, de paixão, de enamoramento pelas melodias de um olhar, do ritmo de uma dança, da doçura das palavras simples onde vive o amor que queremos ouvir. Um convite ficou então no ar: juntar-se de novo a essa equipa, em Paris, para mais fotografias, mais experiências. Jo descobre a importância que o sonho tem na vida dela, e é ele mesmo que vai seguir.


Na chegada à capital dos sonhos, nem tudo é exactamente como pensou. Jo encontra o filósofo que debitava a teoria lida, em Nova Iorque, nos seus livros cavernosos, e descobre “o homem” detrás do “filósofo”. No seu trabalho, a ficção dos seus desfiles de moda - vestida e maquilhada para se mostrar, a um público, como outras personagens -, relembra-lhe aquilo que lhe falta na vida real. E outra vez, o sonho comanda a vida: é quando o seu último desfile termina, em vestido de casamento, já crendo que a última zanga com o seu fotógrafo trará uma separação definitiva, que Jo deixa tudo e todos. Foge da plataforma onde desfilou e refugia-se na sua Paris, num jardim bem longe, protegido pelos sinos que dobram numa antiga igreja e a natureza, a seu redor, que sossega a sua tristeza. O fotógrafo - o dançarino Fred Astaire, ele que nos levou sempre para as nuvens -, esteve prestes a abandonar a cidade, também zangado, mas ao descobrir que Jo ainda aí se encontra, decide procurá-la. Onde estará ela? A personagem de Astaire não pensa - sonha. E sabe bem em qual dos cenários idílicos desta cidade ela o espera. Jo foi atrás do seu sonho. O seu fotógrafo, aquele que o viu, vai ao seu encontro. E abraça-a nesse cenário irreal, reconciliando-se com ela não pelas desculpas de um diálogo, mas através da música e da dança, até fugirem de novo, e juntos, para a fantasia que ambos criaram nesse mundo que apenas existe na tela. Tal como o musical nos manda sonhar e dizer-nos, aos espectadores, sentados na vida real e a beber as imagens desta ficção, que é por ela que devemos comandar a vida. Amando o que ela tem de irreal e não desistir do amor que aí vive. You can’t blame me for being amorous. S’wonderful, s’marvelous, that you should care for me.

1 comentário:

  1. Esta é a minha visita, pela primeira vez aqui. Eu encontrei tantas coisas interessantes no seu blog especialmente a discussão sua. Do toneladas de comentários em seus artigos, eu acho que não sou o único a ter todo o prazer aqui! manter o bom trabalho.

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