CPO:"Transgressão à ética", por André Cardoso

19:29:00 Cinema's Challenge 0 Comments


Embora esta rubrica tenha andado parada, hoje regressou para vos trazer um novo texto de mais um convidado. O seu nome é André Cardoso e trabalha como freelancer audiovisual, mas a maioria dos seguidores de cinema conhece-o pelo seu trabalho diariamente realizado na página de Facebook "Um filme por dia não sabe o bem que lhe fazia". Esta página já ultrapassa os 24 mil subscritores e tem como principal intuito a divulgação da sétima arte. Resta-me agradecer ao André a sua boa-vontade ao escrever este texto para o Cinema's Challenge, que fala de um tema recorrente junto dos profissionais da sua área, e o prazer que todos os dias proporciona a quem segue a sua página no FB.


O Cinema está-me no sangue, não necessariamente desde que nasci, penso que não me foi transmitido pelo leite materno, mas, sim, injectado tipo droga durante a adolescência. O documentarismo está-me constantemente nos olhos, pois sou daquelas pessoas que anda na rua e está sempre a olhar ao redor, avaliando o que daria ou não uma boa história. 

Se o Cinema ficcional não obedece a qualquer tipo de regras para além dos pressupostos necessários para atingir a qualidade, já o cinema documental deve (a meu ver) respeitar a realidade, o tempo e o sentimento das pessoas retratadas. 

No entanto, a pergunta que faço é a seguinte: “Qual o limite de ética?” Um exemplo claro dessa transgressão encontra-se no filme The Brigde, de Eric Steel, em que nos é dado a conhecer uma mórbida e triste realidade. Se por um lado a Golden State Bridge é considerada uma das 7 maravilhas dos EUA, é também a número 1 na tabela de locais escolhidos para cometer suicídio. Escolhendo o realizador um tema tão delicado era de esperar uma de duas abordagens: a distante e fria ou a aproximada e cautelosa. É aqui que as coisas começam a resvalar, pois foi escolhida uma terceira hipótese - a aproximada e fria. Ao montar um esquema de câmaras na ponte constantemente a gravar, permitiu-lhe ir seleccionando pessoas e acompanha-las durante vários minutos até ao seu último acto da vida, mostrando uma inacreditável passividade perante a realidade que se passava em frente. Tudo em prol do seu filme. Aliás, num segmento da “obra” é-nos contada a história de um fotógrafo que, através do seu viewfinder, observava uma das pessoas desesperadas, e que dizia que como havia algo (câmara) entre os seus olhos e a realidade criava-se um distanciamento face aos factos, mas que a estética nunca poderia levar a melhor sobre a humanidade. Assim perdeu a “fotografia do dia” e interveio. O que é um contra-senso, isto estar neste filme…


Todavia, quando a coisa parecia que não poderia piorar, o realizador entra na casa das famílias e esmiúça as possíveis causas para os actos que acabou de filmar e consequentemente permitir.

Não sou apologista de fazer um filme a todo o custo pois o Cinema está-me na veia…mas a ética também.

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