Crítica a "Killing Them Softly": personagens,deixas e câmara arrojadas

16:42:00 Cinema's Challenge 1 Comments

O novo filme de Andrew Dominik, Killing Them Softly, tem um duplo significado, impregnado em cada detalhe da sua história. É assim o resultado da mistura de uma história fictícia, adaptada do livro de George V. Higgins (1985) – que envolve roubos, criminosos locais e jogos de cartas – e de uma crítica renitente à sociedade e política, tanto americana como mundial.

Visualmente deslumbrante, principalmente tendo em conta o género, esta é apenas a terceira película realizada e escrita por Dominik. No entanto, mesmo não deixando, depois de visualizada, a sensação de satisfação total, Killing Them Softly nunca nos deixa de barriga vazia. A refeição é completa: serve-nos uma sobremesa com uma bela apresentação de duas personagens fulcrais, mesmo que sejam remetidas a segundo plano mal a personagem de Brad Pitt entra em cena; banqueteia-nos ainda com um prato principal, a aparição de Jackie Cogan (Brad Pitt), que preenche bem o ecrã, sendo tudo menos uni-dimensional pois existe nele uma simbiose de valores e anarquia difíceis de descrever; por fim, a sobremesa, que é-nos posta na mesa de uma forma dura, porém concisa e bem elaborada, ao nos ser revelada explicitamente a intenção de criticar a sociedade e política – em particular a americana.

A direcção é muito bem confeccionada. Depois de visualizado, há poucas dúvidas de que não seja quase perfeita para o que se pretende com o filme. Tal como os movimentos de câmara, as deixas são também arrojadas. É de ressalvar também o excelente argumento. Mordaz. Desafiante. Inesperado. Inteligente. Frontal. São muitos os adjectivos possíveis para caracterizar este excelente texto, que não nos cansa, mas alicia. Texto esse e performances acompanhadas de excertos de discursos políticos, enquadrados naquilo que se revelaria a era pós- Bush. Toda a construção, quase meticulosa, de peripécias das personagens, metaforizando os excertos, tem um efeito admirável. Nunca nos dando a sensação de documentário ou de filme político, mas, sim, de algo mais, culminando num thriller de crime dramático e, por vezes, quase cómico, ou tragicómico, devido ao humor negro constantemente usado.
O próprio título remete-nos a uma mensagem implícita: Killing Them Softly serve de alusão à narrativa e ao que se passa pelo mundo. Todos nós, aos poucos, estamos a ser mortos. Seja por a nossa fé, crenças e voto serem desprezados ou ultrajados, ou, quase provocadoramente, o título insinuar que com a película, as críticas tecidas são uma forma de dar um tiro de lucidez na sociedade.

Seria quase indecente fazer uma analogia, mas se essa fosse possível seria a um produto dos Cohen (personagens e atmosfera), traçado de um toque de Tarantino (no argumento, com diálogos longos e ricos) com algo de fincheriano lá no meio (realização). Talvez sejam as caras conhecidas ou a índole reveladora e céptica quanto às intenções de algo mudar, como um país, quando as próprias pessoas não o fazem, mas o filme deixa-nos uma marca e angustia que nos obriga a ditar o veredicto: gostamos ou não?
Porém não é isto que ele nos pede no seu final, ele pede-nos apenas que todos pensem, reflictam, sintam o que realmente é verdadeiro, o que acontece à nossa volta e é real. Pois, desde sempre foram vendidas ao homem muitas ideias; é fácil falar, é fácil prometer, é fácil julgar, mas não é fácil cumprir: “ My friend, Thomas Jefferson is an American saint. Because he wrote the words all men are created equal, words he clearly didn’t believe since he allowed his now children to live in slavery. He’s a rich wine snob who’s sick of paying taxes to the brits. So, yeah, he writes some lovely words and aroused the rabble and they went and died for for those words while he sat back and drank his wine and fucked his slave girl. This guy wants to tell me we’re living in a community? Don’t make me laugh. I’m living in America, and in America you’re on your own. America’s not a country. It’s just a business. Now fuckin’ pay me“. in Killing them Softly, 2012.”

Texto originalmente publicado em Arte-Factos.

1 comentário:

  1. Esperei para ler até agora porque só fui ver o filme ontem e não queria ser influenciado :D bom filme, bom argumento sem dúvida e excelente crítica

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