Crítica: «Stromboli, terra di dio»

20:35:00 Cinema's Challenge 0 Comments


"Stromboli, terra di dio", de Roberto Rosselini, é o resultado de uma relação entre ficção e realidade. Um filme neorealista, com um background bastante interessante, onde faz parte a relação adúltera do realizador e da atriz Ingrid Bergman. Tudo começou por uma carta de admiração da atriz sueca, que na altura vivia na América, a dar conta da sua vontade em fazer um filme com Rosselini. Depois disso, criaram uma produtora e associaram-se a uma distribuidora americana para levar a futura obra a outros portos. Mas todo o processo foi complicado, levando mesmo o cineasta italiano a retaliar a versão adaptada americana da distribuidora RKO Pictures, do célebre e excêntrico Howard Hughes, que a seu ver alterou por completo o teor do filme. Vencida a batalha, nos dias de hoje vemos uma versão mais próxima, do que Rosselini quis. Vemos o resultado da ficção e realidade em película. Tanto por ser em parte documental - algumas das pessoas presentes no filme não são atores, mas sim apenas habitantes da Stromboli, dando a conhecer a vida naquela ilha remota e conservadora, onde a pesca é a principal fonte de subsistência, as mulheres vivem subjugadas aos seus maridos e os habitantes ainda presos à tradição -, como pela parte biográfica - de modo subliminar espelhada no filme, que transmite a relação da atriz com o realizador, que na altura foi um escândalo uma vez que ambos eram casados e abandonaram as suas famílias em prol da paixão, que gerou um filho bastardo. Em Itália, tal como Karen, Ingrid foi uma estrangeira com costumes demasiado libertinos, muito mal vistos. Dada a época e sendo esta mulher, e de algum modo o bode expiatório da polémica, passou também a ser vista em terras americanas como um mau exemplo, uma adúltera que conspurcou o seu casamento para abraçar uma vida de pecado junto de um estrangeiro; o que a afastou de Hollywood por vários anos, até a sua admirável interpretação no oscarizado «Anastasia». De algum modo, curiosamente, o olhar dos habitantes de Stamboli representa o que, possivelmente, na altura atriz sentiu e viveu, ao lado do realizador italiano; de acrescentar que a relação apenas durou uns 8 anos, dos quais resultaram 3 filhos (destes destaca-se uma das gémeas, Isabella, conhecida entre outros filmes pelo papel em «Blue Velvet»), acabando por ser sucedida por outra: a sua última, antes de voltar a pedir mais um divórcio, desta vez ao produtor sueco, Lars Schmidt, e de ser vítima de um cancro fatal. 

A história do filme começa numa Itália destruída pelo final da guerra, em que militares e condenados à expatriação aguardam por ordens superiores, de forma a voltarem às suas vidas. Karen (Ingrid Bergman) de origem lituana encontra-se entre os expatriados, à espera de poder ir para a Argentina ter com um grupo de amigos. Já Antonio (Mario Vitale) é um dos militares que espera poder voltar a casa. Um acaso, une as duas personagens, divididas antes pelo arame farpado. Um flerte resulta num conveniente casamento para Karen, que vê na oferta de Antonio uma fuga do campo, oferta que é reforçada pelas promessas do soldado que descreve Stromboli como a terra prometida, onde tudo é melhor, na qual terão uma grande vida! Todavia, quando o casal chega à ilha, a lituana é confrontada com uma dura realidade, bem diferente, de uma terra pobre, com poucos habitantes, na sua maioria velhos, em que nada de interessante há para fazer. Para além disso, a casa onde vivem está parcialmente destruída pelo vulcão ativo, também residente daquela ilha. Sem qualquer conforto no local ou motivação para continuar com Antonio, Karen sente-se enganada e não consegue aceitar a realidade da sua nova vida, em que é oprimida pelo marido e repudiada pela conservadora população. Ao longo da narrativa, a vontade de partir nunca cessa, mas esmorece com o tempo...Até ao dia em que depois de anunciar o seu estado de graça, assiste à erupção do vulcão e volta a querer partir...Antonio, contudo, não aceita e toma uma medida drástica, reduzindo-a a prisioneira na sua própria casa. Posto isto, Karen decide finalmente deixar a ilha e aquilo que viveu para trás. Mas é na cena final que tudo ganha um novo significado. Significado esse que mais do que descrito, deve ser visto. Tal como na vida real, na qual não sabemos o nosso fim e futuro, Rosselini fez questão de criar um desfecho inconclusivo, no qual é o próprio público, quase num exercício de psicologia, que cria a sua própria versão.


Num primeiro momento, encarei a sequência final como uma metáfora à dura e longa caminhada de resignação (ou aceitação, pelos olhares dos mais otimistas) em que a própria personagem feminina não resiste à dificuldade em escapar da ilha, relativizando a sua triste realidade lá. Esta conclusão é enfatizada pelas expressões finais enquanto olha para a aldeia e pede forças, acabando por voltar para trás. Por outro lado, depois de reflectir um pouco, surgiu-me outra versão, onde o cair das malas pode significar o desprendimento da vida que teve naquele local e mesmo antes dali chegar, em que a arrojada subida e o debate interno sejam ambos o mesmo, como uma espécie de metáfora à libertação, resultando quando passa a difícil subida, acompanhada pela violenta banda sonora, perto da cratera do vulcão num sono sereno, de paz e tranquilidade, esse que a faz finalmente perceber o que quer para o seu futuro com clareza, sem mais erros, interesses ou atalhos, traduzido num sucessivo pedido para conseguir ter a resistência e sorte necessárias para fugir para um lugar melhor, dando ao seu filho (como diz) um futuro risonho fora da ilha, mas se isso efetivamente acontece ou não, já fica a cargo da imaginação de cada um. Por seu turno, há ainda uma terceira possibilidade, mais sombria, a de que a personagem sucumbe ao chamamento do vulcão e mata-se, desistindo de lutar e almejando ser perdoada numa outra vida, onde ela e o seu filho possam ser felizes. Esta interpretação resulta da sequência em que existe uma passagem do caos para a serenidade, onde a personagem acorda e o pó e dificuldade dá lugar à tranquilidade e beleza da ilha, como por magia as gaivotas cruzam o céu e a personagem exclama “Dio, Dio mio, Dio mise­ri­cor­di­oso…”. Tudo está bem, Karen parte e o ecrã escurece...


A fotografia impecável monocromática é pintada pela emotividade e tensão das personagens, num ambiente austero e realista, que estupidamente é prejudicado pela apresentação da atriz sempre perfeita, como se tivesse acabado sair de um spa. Esse aspecto torna pouco credível e de algum modo vai contra os ideias realistas pretendidos no filme, de cenas in loco, com transeuntes, perdidos num tempo remoto. No entanto, se o aspeto a trai, a performance nem por isso. Ingrid Bergman devasta-nos com uma ambiguidade arrebatadora e complexa. Em que a perfeição externa luta com a imperfeição do seu interior, visível, não aos olhos mas ao coração. Porém essa imperfeição não se trata de estar certa ou errada, mas sim de não possuir a capacidade de se adaptar e aceitar, sendo desse modo feliz. Em que tenta, sem sucesso, que a espera seja menos dolorosa, agradando a Antonio, com a esperança de ambos partirem um dia. Mas esse dia nunca chega pois também o personagem masculino vive ligado à tradição, à terra e vontade irracional de ficar (algo comum à mentalidade daqueles habitantes, como podemos ver no início do filme alguns voltam a Stromboli para viver os seus últimos dias) e é aí que nos deparamos com a verdadeira Karen, que por várias vezes usa, ou pelo menos tenta, a sedução para escapar. Talvez seja o desespero a falar mais alto, a sede de liberdade, ou talvez seja a própria natureza de Karen, de não conseguir encarar o mundo simplista e real tal como ele é, vivendo também ela agarrada às memórias de uma vida luxuosa e sem travões.

Especialmente para as mulheres, «Stromboli, terra di dio» é um filme forte, sobre valores, costumes, tempos e, acima de tudo, pessoas. Tão poderoso, quanto intemporal, causa inquietação, mostrando uma micro-sociedade misógina, sufocando-nos, a um nível que nos faz pensar: naquilo que somos, temos ou ostentamos. Remetendo-nos à nossa própria subida ao vulcão.

"I was found of them that sought me not; I was made manifest unto them that asked not after me." 

***

Classificação