Crítica: «The Hunger Games: Mockingjay – Part 2»

03:16:00 Cinema's Challenge 0 Comments


Há três anos uma cara ainda não muito conhecida ocupava com força e presença o grande ecrã de todos os cinemas do mundo. O seu nome era Jennifer Lawrence. Uma actriz emergente, simples e tímida, que destacou-se aos olhos de alguns no seu primeiro trabalho (como protagonista) em cinema - o filme «Winter's Bones» - e que brilhou ainda mais na estreia da trilogia, baseada nos livros homónimos da autora Suzanne Collins, «Hunger Games», que acabaria por ter quatro filmes devido ao pensamento contrário aos de Noam Chomsky, em suma, o capitalismo próprio da nossa querida América. Um, dois, três anos passaram e, gradualmente, algo mudou. A JLaw transformou-se e, coincidentemente (ou não), também a saga. 


O primeiro episódio e o segundo passados no campo dos jogos tinham um ritmo frenético, entre o suspense e ação, mesmo com um toque muito juvenil e ótimo para o público genérico, conseguia divertir, entreter e ser um bom produto, daqueles que não temos problema em pagar para ver. Com personagens interessantes, bastante emoção e dúvidas quanto às intenções das várias, os dois primeiros filmes conseguiram alcançar os seus objetivos: de serem bons blockbusters com uma elevada box office. Mas todo o merchandising e marketing em torno da saga e da protagonista, mais propriamente da atriz, fizeram com que a qualidade caísse a pique. A saga tornou-se exclusivamente num produto, não se distanciando dos livros que pela crítica foram aclamados como medíocres. Os dois últimos filmes revelaram que a pressa e sede de faturar são inimigas da perfeição, ou se preferirem qualidade para não entrarmos em hipérboles. «The Hunger Games: Mockingjay - Part 1» fez a transferência dos jogos para a revolução, mas essa mudança ficou longe de correr bem. Ainda assim, tal como acontece numa relação defraudada pela desilusão, tentamos enganar-nos com desculpas, neste caso em particular de que seria a falta de ação e alteração da história que explicaria a clara mediocridade cada vez mais iminente da saga. Mas não. O problema esteve sempre lá, mas foi crescendo como um parasita. Esse que triunfou no fim destes "jogos de fome". Em que a série deixou de ter como plano de fundo ideais dignos e uma mensagem interessante (de luta pela liberdade, de controlo da segurança vs. privacidade e combate ao sofrimento alheio como divertimento de terceiros, algo que já acontece atualmente seja por intermédio dos media sensacionalistas ou dos realitty shows) e passou a ser exactamente aquilo que contrariava, apenas mais um produto de encher os bolsos à custa de tudo; o que é bastante irónico, embora triste. Assim, ficou claro que a falta de originalidade - pois desde do primeiro episódio tivemos consciência de que bebeu muito ao oriental «Battle Royalle» - não foi o problema, mas, antes, a ambição por detrás da saga que rendeu milhões à Lionsgate.


Ninguém esperava uma grande obra para a posterioridade (pelo menos eu), no entanto o último capítulo da saga desilude completamente, com uma história morna, onde o climax não chega a existir (o vilão é derrotado quase sem percebermos e um twist remonta à já gasta ideia de que quem está no poder tornar-se-á no próximo vilão ou de que é necessário recorrer a meios menos corretos para salvar muitos; são múltiplas as interpretações, mas muito pouca a razão por se optar por qualquer uma delas) e o final é dos desfechos mais sem-saborosos e antiquados que vi (e olhem que vi coisas muito más em sala) nos últimos anos.

A escolha de cast para a personagem do Peeta sempre foi vista como uma forma de a certa altura revelar que aquele romance de telenovela seria uma farsa para justificar e entreter o público que assistiu aos jogos, torcendo para que as personagens sobrevivessem, ambas, contrariamente ao que aconteceu em todas as outras edições. Todavia, a ideia de tornar o romance em algo verdadeiro foi um dos pontos que contribuiu também para piorar o rumo da história. Além da clara falta de química entre Katniss e Peeta, nunca ficamos convencidos de que esse amor nascido do nada seria real, mas sim, sempre, até ao último minuto do segundo filme, apenas conveniente e pouco natural. O terceiro filme mostrou-nos que não e o quarto obrigou-nos a aceitar. Forçadamente tivemos de esquecer, um previsível, mas necessário twist, em que a personagem feminina revelaria que apenas usou Peeta para um bem-maior: salvar ambos. Em vez disso, a saga tornou-se num esquizofrénico romance sobre o qual ninguém queria saber, a par de uma luta revolucionária pela liberdade de Panem que se tornou grande e arrastada demais para a seriedade e capacidade da saga, bem como sequelas que se seguiram.


Ainda assim, existem alguns momentos interessantes e uma ponte com acontecimentos dos primeiros filmes, reconhecidos como uma tentativa de dar a sensação de continuidade entre os vários filmes da saga que viu a luz do projector em 2012. Vale a pena ver a segunda parte de Mockingjay para quem seguiu desde o primeiro episódio a saga e tem curiosidade em saber como tudo acaba, mas pouco vale para quem vir este último episódio isolado que tem mais aspectos negativos do que positivos, fazendo muitos duvidar do seu iniciar aplaudido. O suspense, mortes e surpresa não existem - contrariamente ao que aconteceu nos primeiros dois filmes e um pouco no terceiro. Neste último, os restantes personagens são pouco focados, à excepção da protagonista, e temos uma Jennifer Lawrence completamente apática (e cada vez mais magra), com deixas cliché e com um desenrolar de cenas previsíveis, onde as emoções deixaram de estar presentes - pelo menos de interagirem directamente com o  coração do público - , culminando num ponto final fraco e que esmorecerá rapidamente na memória do espectador. Ao contrário do que esperamos neste último capítulo o Mockingjay não venceu, morreu. E todos assistimos a isso durante durante uma hora e meia sem poder fazer, rigorosamente, nada.

***

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