Já não me lembro #2

07:31:00 Cinema's Challenge 8 Comments

Já não me lembro de ir ao cinema e pagar menos de 4€ para ver um filme. Já não me lembro de ter um desconto para estudante realmente significativo, porque bilhetes a quase 5€ não são ajuda para ninguém que ainda nem sequer trabalha. Mas esqueçamos ocupações. Quem trabalha também não está melhor. Levar uma família ao cinema sai bem caro hoje; vamos reflectir sobre isto ainda melhor. Isto dito de um modo mais pensado, quer dizer que tentar incutir alguma cultura a nós, aos nossos hipotéticos filhos, irmãos, pais, etc, é algo cada vez mais caro e, portanto, difícil. De uma forma mais extrema, isto representa para todos nós uma violação de alguns direitos e garantias do ser humano. Não achem que exagero, não o achem mesmo. Passem os olhos por estatutos, leis, Constituição, e lá chegarão. Nas entrelinhas, mesmo com uma lacuna ou outra, o homem tem o direito a cultivar-se e a que esse acrescentar de cultura lhe seja propiciado pelo seu Estado, ou pelo menos espera-se que seja facilitado. Todavia, hoje em dia isso é quase uma utopia. Mas, agora, responderão: não é o Estado a "empresa" que gere os cinemas, em Portugal ou em qualquer lugar. E eu direi: têm razão, contudo algum peso devem ter para proceder a uma manutenção das mesmas.
Recuemos.Voltando à família, uma com quatro elementos tem de pagar cerca de 25€ para usufruir das 'maravilhas' potenciadas pela grande tela, que é o cinema. Duas a três vezes por mês fica entre 50€ a 75€ num orçamento que actualmente é cada vez mais apertado. Não se trata de uma coisa assim tão supérflua, aliás, quem o afirma , então, ou não gosta de cinema, ou pretende ver até ao resto da sua vida as grandes obras piratas no seu home cinema. É óbvio que todos já 'sacaram' algo. E ainda o fazem. Mas porque será? Numa década onde se apela a dizer "não à pirataria ", como é que não se preocupam em baixar o preço dos bilhetes? É aí que nasce o cerne do problema. E a porca torce o rabo. É um paradoxo. Claro que mesmo que fossem baixos os preços este tipo de acções existiriam na mesma, mas seriam muito menores, e não realizadas por necessidade, como é o caso por vezes. Disso não tenho dúvida.
As grandes empresas que detém o monopólio do que chega a Portugal, como é o caso da Zon Lusomundo, continuam a 'abusar' dos bolsos de quem ainda faz o esforço de ver um filme no cinema. Além do bilhete, são as bebidas e aperitivos verdadeiramente caros, assim como o aplicar do 3D a filmes, onde este se revela plenamente dispensável. Resultado: o afastamento do público das salas de cinema. Tudo começou por ser uma vez por semana, depois passou a ser uma vez de duas em duas, depois, uma vez por mês, mais tarde de dois em dois meses, e por fim, há quem já não vá simplesmente ao cinema. O holocausto dos cinéfilos, poderia-o chamar. Exagerado, sim. A verdade, é que por muito que pese no bolso, nós, adoradores de cinema, nunca deixaremos de o 'visitar', nem de sonhar, nem de tentar conseguir suportar algo que alguns acreditam ser um capricho, apenas porque queremos manter esse direito ainda vivo...O de ver um filme no sitio para o qual foi pensado quando foi realizado. Será pedir muito?! Naquele que em tempos foi um espaço impulsionador de sonhos e que vivia não só do lucro, mas, sim, também da vontade de levar a quem nunca viajou a um novo mundo, novas culturas, sem sair do mesmo lugar, desde miúdos a graúdos, de todos os estatutos sociais, chegando a ser um meio de massas, que alimenta uma "mobilidade paralisada" do ser humano, que hoje em dia tem tão pouco tempo, infelizmente.
Um dia, Orson Welles disse: "O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.", mal ele sabia aquilo a que chegamos actualmente.

8 comentários:

  1. Pois é… E por essas e por outras que continuo amigo do sr. Torrent.
    3D? Pfff…
    Já nem se consegue encontrar esses filmes em 2D, a escolha é ditatorial.

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  2. Nem o meu almost guilty pleasure -Piratas das Caraíbas 4- posso ver no cinema. Porquê? é em 3D, só porque sim. enfim.É realmente deprimente o estado em que a indústria está.

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  3. Bem pediste, mas olha, desculpa. Acho que estás a exagerar. :)
    A cultura ainda é acessível. Não toda, mas ainda é. Qualquer biblioteca cede livros, dvds, cds, etc; os livros electrónicos estão ao preço da chuva, etc. (este etc quer dizer que não me lembro de mais nada de positivo)
    O que se busca no cinema, principalmente para a família, é entretenimento, não cultura. Não que haja nada de mal com isso, simplesmente acho que não é o exemplo perfeito.
    Apesar de não concordar com a negrura do quadro que pintas, tenho que dar o braço a torcer. A indústria já teve melhores dias.
    A aposta no 3D é a ideia mais ridícula de sempre! Fazem filmes mais caros mas com pior qualidade de imagem, e depois vendem os bilhetes a um preço exorbitante. Talvez fosse melhor ideia nas bilheteiras do cinema terem uma fila para a compra de bilhetes e outra para dar instruções para a utilização de torrents, rapidshares e megauploads...
    Outra situação que me chocou, foi ficar a saber que muitos dos filmes são projectados com menos brilho (até menos 80%) porque as lentes dos filmes 3D não são retiradas (para poupar).
    Está aqui o link: http://blogs.suntimes.com/ebert/2011/05/the_dying_of_the_light.html
    Resta esperar por dias melhores...
    Cumps Baú-dos Livros

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  4. E sou mais amigo do Sr.nzb... :) Mas sempre que posso continuo a ir ao cinema, caso até tivesse um bem pertinho ia praticamente todas às semanas como sempre fiz.

    Mas sem duvida que os preços estão caros com 3D então... :(

    E o pior de tudo é que deixei caducar o cartão jovem :)

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  5. Luís : Compreendo que penses assim, mas acho que há mesmo falta de acesso às coisas, quando estive em Londres e mesmo Espanha, pude perceber como a oferta cultural e mesmo promoção à mesma é vastíssima. Aqui parece cada vez mais escassa, não sei qual é a tua geração/idade, mas na minha, casa dos 20 e poucos vejo tudo a regredir...Há coisas que mudaram bastante e para pior, o cinema é uma delas, além do 3D que ó veio encarecer e ainda obriga a ver o filme desse modo porque, por vezes, ridiculamente, não existe o filme no formato normal, também os preços dos bilhetes são mesmo altos. Eu como estudante não consigo mesmo ir ao cinema mais do que uma vez por mês.É caro. Para não falar das distribuidores entre outros assuntos. Voltando ao geral do cultural, claro que existem alternativas aos filmes, mas a ideia é incentivar as gerações vindouras e educar....e quem disse que o entertenimento não pode estar aliado à educação cultural? eu quero acreditar que sim, pelo menos :) . Mas percebo o teu ponto de vista e respeito-o.

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  6. Nuno: solução, assalta um jovem e cola lá a foto e fazes um fake ID...ok, estou a brincar como sabes :)

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  7. Tenho 21 anos e sou estudante, por isso percebo bem do que falas. O último filme que vi no cinema foi o Black Swan ( e tive que pensar muito tempo para me lembrar :)
    E também sei que noutros países o cenário é incomparavelmente melhor, mas nós às vezes só olhamos para o lado negativo das coisas. Sim, o cinema anda pelas ruas da amargura, a cultura em Portugal pelas mesmas ruas anda (até parece que o Passos quer extinguir esse ministério), mas há coisas muito novos muito positivas que provavelmente não trocaria por um cinema igual ao de "antigamente". Temos acesso à internet onde podemos aceder a tudo, ler tudo, ouvir tudo... E com algum esforço até o podemos fazer legalmente; ainda à pouco fiz o download da maior parte das obras do Dickens e do Eça de borla.
    Se quiser posso encomendar filmes e livros do estrangeiro a preços diminutos e recebê-los em casa em coisa de dias.
    Claro que há muitas coisas que estão a piorar e que invejo a aposta na cultura que governos de outros países fazem, mas mesmo assim continuo a achar que num cômputo geral estamos melhor do que estávamos.

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  8. Finalmente dediquei uma atenção cuidada a este post que é verdadeiramente importante e deveras pertinente perante o actual estado das coisas. Adorei tudo porque não só é uma verdade que todos podem facilmente constatar como também consegue ir um pouco mais à frente e colocar os dedos nas feridas todas.

    É um assunto que não está encerrado pois mais vertentes se poderiam explorar nesta reflexão (e o quanto admiro quem faz reflexões assim tão clarividentes).
    O mundo evoluiu e uma das grandes diferenças é que o conteúdo "filme" passou a ser algo pelo qual se criaram diversas fontes de concorrência, fontes essas que não existem para entregar a cultura mais acessível mas sim extorquir o mais possível dos bolsos de cada um.

    Se há 3 ou 4 décadas atras, faziam-se menos filmes mas com primazia na qualidade artística e o único meio de serem apreciados era somente na sala de cinema. Hoje são imensos e feitos em linha de produção para tentrem serem vistos de alguma forma e em qualquer meio ou suporte existente... e são tantos: cinema multiplex, DVD/BluRay, VOD das operadoras, videoclubes que resistem, canais premium para filmes, canais cabo, canais abertos, meios portáteis, aluguer On-Line, etc, etc... e ainda os processos piratas via net e vendas ambulantes de captações dentro do cinema frente a cafés.

    Andreia Mandim podes crer que este é um assunto que haveria muito para se dizer sobre ele, mas termino o meu "testamento", já longo, referindo que o mais gostei do texto não foi somente a mensagem mas principalmente a qualidade engenhosa da tua escrita, desta vez fenomenal, imparável, focada e um prazer de ler tremendo. Um must mesmo...
    Faz mais disto!
    Andreia: Well done!!!

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May the force be with you!