Crítica: "Passion"(2013), de Brian De Palma

09:28:00 Cinema's Challenge 2 Comments

Foi com "Censurado" ("Redacted") que Brian de Palma pegou num projecto bastante diferente de tudo o que até agora havia feito: um filme documental que explora a guerra do Iraque e oferece cruamente ao público uma 'realidade'. Agora, cerca de seis anos volvidos, com "Paixão" ("Passion"), o realizador prometia voltar às suas origens, com um filme que reúne mulheres, sexualidade, perigo, sedução e, claro, morte.

A narrativa conta a história de uma dúbia relação entre várias personagens, mas principalmente a de duas mulheres: Christine (Rachel McAdams) e Isabelle (Noomi Rapace). Christine é uma poderosa e charmosa mulher que chefia uma famosa empresa de publicidade, já a segunda, Isabelle, com um ar mais masculino e sombrio, é uma funcionária com vista a ascender profissionalmente graças à sua perspicácia. Ao longo da história, depara-mo-nos com uma forte tensão sexual e competição laboral-romântica entre ambas. Visto isto, torna-se impossível não criar um jogo incessante de intrigas, o qual confunde o público e torna cada cena ainda mais perversa.

Mas se em outros tempos a ousadia de optar por 'femme fatales' foi uma boa decisão de Brian de Palma, em "Paixão" essa opção não colheu os frutos prontamente pretendidos. Temos um conjunto de personagens - na realidade são 4 as mais presentes, Christine, Isabelle, Dani e Dirk - completamente desprovidas da densidade que seria necessária para criar uma boa película de crime-mistério. De todas as personagens, a que mais se ressente é a interpretada por Noomi Rapace (para quem não se lembra foi a actriz que deu corpo ao original sueco "The Girl with the Dragon Tatto" e a "Prometheus", ambos fracos filmes com desempenhos nada admiráveis), esta parece completamente apática e quando não o é, caí no fosso do exagero, assim como todo o filme. Para uma personagem deste calibre seria precisa uma actriz com grande carisma e presença, no entanto a opção por Rapace deitou tudo isso a perder. Mas pior que Rapace são as outras duas personagens secundárias, Dani e Dirk, extremamente pobres e cliché. Por outro lado, McAdams consegue brilhar algumas vezes, mesmo que também seja uma actriz mediana ofusca claramente a personagem de Rapace, mesmo quando provavelmente não é suposto o fazer.
No entanto, a estranheza não se fica por aqui. Também o ambiente americano-europeu, apenas possível pelo local onde supostamente se passa e a nacionalidade das personagens/actrizes, causa alguma confusão ao público, parecendo ainda menos natural o facto de coabitarem todos na mesma empresa/espaço. A soundtrack original, executada por Pino Donaggio, podia ser uma mais-valia, até o é em momentos mais caricatos, mas quando chega aos momentos de tensão/dramáticos, ela boicota os mesmos. Dá a entender o que se vai passar, matando o suspense e denunciando num tom excessivamente melodramático algum acontecimento menos bom. O espectador não tem parte activa no filme para tecer as suas conclusões e o mais grave de tudo é que a base do filme parece ser que a de que o público a tenha, daí o intrincamento de poderosos duvidosos ao longo da trama.

O thriler criminal é demasiado irregular. Tem a marca perdida no tempo de De Palma, todavia isso não basta, pois apostar, como regresso às telas gigantes, num remake de um original com apenas dois anos de existência ("Crime d'amour", do francês Alain Corneau) é quase suicídio cinematográfico. E as reviravoltas das quais "Passion" está repleto são intragáveis. A expectativa tida pelos fãs do realizador de "Carrie" pode ter sido também um factor de peso que deixou o filme ainda mais manchado.

Os detalhes liquidam o filme [Spoiler]. O facto de Isabelle não roubar antes, a Dani, o telemóvel com as provas é, provavelmente, o mais crasso. É demasiado sem sentido e forçado para poder ser credível. Esperamos tempos e tempos para ver algo óbvio acontecer da forma mais, perdoem-me os termos, idiota possível. É como se de repente as personagens passassem do gatinhar para o correr, não há uma evolução lógica e gradual, há apenas autênticas epifanias sem sentido. A tentativa de criar um nó com o fio deixado na primeira parte do filme - a de que Christine teria uma irmã gémea - com o fio atirado à cara do público na segunda parte - o de no funeral aparecer a irmã gémea que afinal sempre existia - é mais um dos exemplos de tentar surpreender o público que não funciona.
Como já é seu costume, De Palma usa e abusa de alguns elementos ao longo do filme. Tal como já mencionei, as belas mulheres, a perversidade, dupla identidade, os jogos sexuais, fetiches, máscaras, tudo muito visual e lascivo. Temos ainda o repetir de planos, já feitos em outros filmes conhecidos, e um certo cheirinho de um realizar que pretende 'copiar' o do genial Hitchcock ou até uma morte a la Argento, mas em vão. O modo como os planos são captados poderia resultar em algo grandioso. Porém o produto final é um misto confuso e desajeitado de tentativas de iludir o público. O jogo de espelhos, o mistério possível com as máscaras, a divisão e sobreposição de ecrãs que captam momentos diferentes (a cena do balé e do crime, que sugere o jogo que a mistura da vida pessoal com a laboral pode ser), as 'provocações' com constantes tentativas de product placement da Apple e Panasonic e os contra-campos em objectos bombardeiam o espectador que acaba por ter uma congestão, das grandes.

A um dado momento não sabemos onde estamos. O fio condutor nunca existiu ou se existiu esse não era real. Envolvimento lésbico, sonho dentro de sonho, um retrato do perigoso universo empresarial, que morre na praia e não leva o veneno feminino ao patamar que este, certamente, consegue alcançar, como em "Femme Fatale".

Nota: 4/10

2 comentários:

  1. Não gostas nada da Noomi :P Por acaso devo dizer que também não a acho nada de especial, apesar de ainda não ter visto a trilogia Millennium. Quanto a este filme, até pode nem ser nada de especial, mas fico contente pelo De Palma estar a tentar regressar ao que faz de melhor: copiar outros, com classe.

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  2. Parei de ler quando disse que Rachel McAdams é uma "actriz mediana".

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