CPO: "A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky", por Alexandre Vale

03:58:00 Cinema's Challenge 0 Comments

O convidado de hoje da rubrica "Cinema por outros" é o estudante de ciências da comunicação, Alexandre Vale. Este tem 22 anos e apresenta-se como um apaixonado por cinema. Confessa ainda que foi um amor que surgiu aos 16 anos, depois de ver Taxi Driver, aquele que viria a ser o seu filme favorito. Desde ai, o Cinema tornou-se tão importante para ele como oxigénio, explica. Actualmente, este escreve crítica cinematográfica para o ComUM (Jornal dos Alunos de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho), sendo a sua principal forma de expressão. 

Desde já, agradeço a presença de Alexandre Vale no Cinema's Challenge. Segue-se o seu texto.


O que vos posso dizer sobre A Montanha Sagrada é que ver este filme foi a experiência mais parecida que eu tive com uma trip de LSD (e eu nunca toquei nisso). Não só é um filme que mexe muito com a nossa perceção e (quase) que provoca alucinações. É um filme que expande a mente. Quando acabei de o ver, fiquei dias e noites a fio a pensar e a refletir sobre o que assisti. Primeiro estranha-se (muito). Depois, entranha-se. Por fim, ilumina-nos. 

Diz-nos o trailer: “nada na sua educação ou experiência preparou-o para este filme”. E é verdade. Alejandro Jodorowsky é bem capaz de ter realizado o filme mais desconcertante, alucinante e transgressivo de sempre. Ao mesmo tempo, proporcionou uma das experiências cinematográficas mais transcendentais e um dos maiores desafios espirituais que os espetadores alguma vez encontraram. 

E que género de filme é este? Uma comédia? Um filme de terror? Um drama? Uma sátira? Um exercício de puro non-sense? Tudo dependerá da sua pessoa e a sua disposição para interpretar o que irá ver. Confesso que não é fácil de digerir a obra do realizador chileno. Esta anda a passo de caracol, com uma narrativa ilógica e desconexa. Há quem adormeça a meio. Há quem odeie e nunca mais queira-o ver à sua frente. Há quem ache que o que é retratado é demasiado violento e de mau gosto para ser apreciado. Mas os que são capazes de o ver até ao fim, são recompensados. 

É uma experiência única. Vale pelas imagens que tem. Grotescas, chocantes e repletas de simbolismo, agridem impiedosamente os nossos sentidos. São imagens que não têm medo de se lançar à iconoclastia. Troçam e tentam ir contra aquilo que nós pensamos acreditar, que pensamos saber e que pensamos ser. São imagens que conseguem sintetizar um grande poder satírico sobre temas relevantes, em intrínseca relação com a Humanidade: a História, a religião, as ideologias políticas, a arte, a música, a esoterismo, entre outros. Contudo, não é uma troça e um chocar gratuito. 

É uma experiência única. Vale pelas imagens que tem. Grotescas, chocantes e repletas de simbolismo, agridem impiedosamente os nossos sentidos. São imagens que não têm medo de se lançar à iconoclastia. 
Jodorowsky conhece muito bem o poder das imagens. Afirmou ele uma vez: “O que estou a tentar fazer quando eu uso símbolos é despoletar no teu inconsciente alguma reação. Eu estou muito ciente do que estou a usar, porque os símbolos podem ser muito perigosos. Quando usamos “linguagem normal” nós podemos defender a nós mesmos, porque a nossa sociedade é uma sociedade linguística, uma sociedade semântica. Mas quando tu começas a falar, não com palavras, mas só com imagens, as pessoas não se conseguem defender.” 

A Montanha Sagrada é um profundo questionar sobre a nossa realidade imaginada. Imaginada, porque a realidade na qual vivemos é uma imagem que nós criamos e que compomos. Imaginada, pelas nossas crenças, pelas nossas ideologias, pela nossa espiritualidade e pelo papel que escolhemos desempenhar no mundo em que vivemos. 

Recomendo vivamente a qualquer cinéfilo que se preze que veja A Montanha Sagrada. Não só é um filme que desafia (e ultrapassa) todos os cânones cinematográficos, como enriquece muito quem o vê. Todos os textos que se possam escrever sobre esta obra são esforços fúteis. A experiência que Jodorowsky nos proporciona só é devidamente captada pelos nossos olhos e pelo nosso espírito.

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