Crítica a "Ruby Sparks": uma história que morre na praia

16:08:00 Cinema's Challenge 1 Comments



Muitas vezes, no cinema, o “início” ou o “final” de uma história é o elemento essencial para ajudar o público a decidir o que acha de um filme. São dois momentos cruciais para o espectador, que espera nestes o máximo de qualidade: quer pelo facto, no caso do “início”, nos apresentar pela primeira vez a história e personagens, quer, no caso do “final”, por nos mostrar o desfecho destas. E é o duplo falhanço destes dois momentos importantes que condena um filme. O que se aplica a “Ruby Sparks”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris («Little Miss Sunshine»). 

A obra conta a história de um romancista, Calvin (Paul Dano), que sofre de um perturbador bloqueio criativo que atrapalha o desenvolvimento de seu novo livro. Com muitos problemas emocionais, este começa a sonhar e a escrever sobre uma personagem feminina, apaixonando-se aos poucos por ela. É aí que surge Ruby Sparks (Zoe Kazan), que inicialmente é a personagem do seu novo livro, mas que pouco depois ganha vida, passando a conviver e a relacionar-se com Calvin e a família. Querem princípio mais cliché que isto? Se querem, então vão ter esse momento no final do filme. O “felizes para sempre” não é poupado. E a história em vez de arriscar e contrariar todas as tendências do previsível, como acontece no final de «500 Dias de Verão», fica-se pela conclusão pressentível.

Apesar de esta ser uma daquelas películas que nos deixa, quando saímos da sala, no limbo – do “gosto” ou “não gosto”/ “bom” ou “mau” –, à medida que vamos reflectindo sobre ela percebemos os vários descuidos presentes na sua narrativa. Não se fica apenas pelo início e final pouco entusiasmante. Ao cair na tentação do uso constante do cliché e da câmara tremida, levando o público como garantido por usar a máscara de filme indie, «Ruby Sparks» não consegue igualar o patamar de outras obras do género - como «Juno» ou, da sua antecessora, «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos».

Não existe uma visão diferente, mas apenas mais do que já vimos por aí aos pontapés em outras comédias românticas. Aliás, existe um filme de 2006, com a Emma Thompson e Will Ferral, que tem uma base de história muito semelhante, chamado «Contado Ninguém Acredita». Em que uma escritora deprimida e solitária acaba por criar uma personagem e esta ganha vida, tal como o que acontece na película da dupla Dayton-Faris. Logo, é inicialmente aniquilado mais um dos factores que poderia ser um ponto a favor do filme. No entanto, a lista de falhas não se fica por aqui. Não existem personagens com as quais criemos empatia ou soframos conjuntamente à medida que a história se desenrola. Não há muito mais do que um conjunto de juras de amor forçadas e extremamente melosas, que nos fazem torcer o nariz. Provavelmente, problemas que teriam sido evitados por um argumentista mais experiente; o que não é o caso de Zoe Kazan, argumentista do filme e também co-protagonista. Curiosamente, esta tem uma relação amorosa com Paul Dano na vida real, o que pode explicar a sua presença no filme e o exagero de momentos “melosos”, que acabam por enjoar o público. 

Apesar de todas as críticas negativas já assinaladas, «Ruby Sparks» tem algumas qualidades, mesmo que acabem “por morrer na praia”. A mensagem do filme, mesmo que envolta em toda a confusão suscitada por muitas personagens e episódios desnecessários, é boa. Passando pela ideia de que a idealização de alguém, ou o amor platónico, feito à nossa imagem e vontades, é sempre algo perfeito e que nos agrada. Mas, quando se torna real, por muito irrepreensível que nos parecesse, com o tempo, acabamos sempre por encontrara pequenos defeitos e desagradar-nos. É necessário, portanto, aceitar as diferenças para chegar ao amor. E é esta a simples mensagem que nos tenta apresentar o filme, mesmo que use a abordagem errada para isso. O elenco também não é mau, tem algumas caras conhecidas, que dão lugar a personagens caricatas: como Antonio Banderas (Mort) ou Annette Bening (Gertrude). Mesmo que tenha outras sensaboronas como a de Ruby.

A banda sonora e fotografia também estão bem aplicadas, conferindo alguma vivacidade e ritmo ao filme. O que é já recorrente em filmes deste género, que nos últimos anos começaram a ser cada vez mais frequentes. E aos quais não gosto de chamar indie, por em pouco se assemelharam aos que merecem o desígnio original, mas sim “neo-indie” ou “pro-indie”, no máximo.


Mesmo assim, a narrativa consegue surpreender e entreter o público pontualmente - confesso que me levou a dar até umas gargalhadas. A meio do filme, parte em que a história se desenvolve e parece até um pouco prometedora temos humor inteligente e a apresentação de uma família caricata, a de Calvin. Contudo, não dura muito. A aparição dos membros da família proporciona momentos soberbos, mas que acabam por ser mal explorados. 

Existem demasiadas pontas soltas que nunca chegam a ter um nó e vários indícios largados ao longo do filme, que pouco ou nada alteram o seu sentido global. É como um bolo cheio de enfeites, que depois de retirados vemos o quanto é banal. Entre muitos outros aspectos e personagens que são esquecidos com o desenrolar da história, deixando o público confuso. Para não falar, que se prende demasiado à fantasia, procurando sempre o caminho mais fácil e ilógico, muito distante do que acontece na vida real. 

Em suma, «Ruby Spark» nas mãos certas e com uma melhor co-protagonista e argumentista poderia ter dado um belo filme, mas ficou-se pela mediocridade. Talvez no papel parecesse bem, mas na tela não resulta. No entanto, consegue entreter e tem alguns “altos”, que fazem com que o tempo passado à frente da grande tela não seja um desperdício. Agradando provavelmente aos menos picuinhas e fãs do género. 

(Ouçam a soundtrack porque vale a pena)

Nota: 5 

Melhor: A mensagem transmitida pelo filme e o momento em que Ruby conhece a família de Calvin. Dando especial ênfase ao irmão Harry (Chris Messina) e ao padrastro Mort ( Antonio Banderas). 

Pior: O início e o final cliché. Para não falar da base da história pouco original e dos momentos demasiado “melosos”.

Podem ver esta crítica também no site C7nema com o qual colaboro actualmente.