Síntese Crítica: "Lincoln"

18:30:00 Cinema's Challenge 6 Comments


Acho que o Spielberg está a ficar caduco, assim como a sua filmografia, porque além de não saber a diferença entre robots e et's (Guerra dos Mundos ftw), também não sabe a diferença entre emoções e sexualidade duvidosa (Lincoln, SPOILER: momentos em que o Lincoln dá a mão a gajos e depois põe-se em poses nada favoráveis para a sua masculinidade). Sim, agora, vou falar do filme. Não é totalmente mau, mas entre os clichés e momentos forçados, palha e mais palha gratuita para comover, com a soundtrack a revelar isso momentos antes, assim como deixas nada originais e fora do contexto (como o sarcasmos e moralismos do presidente dos EUA, que parece mais uma espécie de síndrome de Tourette), o filme, daquele que nos fez sonhar de olhos abertos, com obras como ET e Lista de Shindler, está muito aquém do esperado, principalmente para receber 12 nomeações ao Oscar.

No entanto, tem momentos até agradáveis, boa fotografia e cenários - apesar de o jogo de luzes por vezes não resultar devido à sobrexposição de algumas cenas.

Mesmo assim, algumas personagens, como a do Tommy Lee Jones têm a sua particularidade e peso no filme, mesmo que não o torne elementar, por isso, mas dá-lhe alguns pontos, naquilo que no conjunto de cerca de duas horas e meia não foi propriamente um mar de genialidade, ou de cinema que não provoque um tédio brutal e falta de seriedade para encarar as cenas/narrativa, por serem, por vezes, extremamente mal confeccionadas pelo realizador, e não nos permitirem "enganar" e crer nas acções e discursos metafóricos, usados tantas vezes que não tenho dedos para contar que ao longo do filme cansa e o desfalca.

A nível histórico estaria muito bem, se mais uma vez não fosse apenas dado o ponto de vista enviesado americano. A escravatura é um tema bastante importante, também tratado no seu colega na corrida aos Oscares, Django Unchained, mas que este último consegue melhor explorar, de uma forma racional e que mostra as várias partes envolvidas. Ao passo que em Lincoln, os escravos praticamente não têm voz, o que importa não é a causa, mas os sentimentos dos "pobres" americanos caucasianos, mais uma vez o foco está na política e personalidades com poder, em vez de estar no lado daqueles que sofreram os danos provocados pelo estigma dos brancos que lá chegaram.

Há ainda surpresas no que toca ao cast, Joseph Gordon-Levitt, que infelizmente aparece por breves momentos. Embora Daniel Day-Lewis seja bom actor, o papel de Lincoln não me pareceu constar de uma das suas melhores interpretações, tendo em conta as nomeações acumuladas para a recepção da estátua dourada e parecer esforçar-se demais para encarar uma personagem/personalidade criada pela América, como se fosse um herói. É um bocado triste perceber que nem o cinema está livre desta influência política e fanatismo, que é alimentada como se de uma "delusion" se tratasse, e arrasta milhares de pessoas.

Todavia, existem marcas spielbergerianas. Como a última cena, em que é a criança que mostra a emoção vivida no momento, em vez de aparecer o próprio momento; querem mais Spielberg do que isto? Tal como temas o diálogo entre os soldados logo no início e uma sequência de três planos de Lincoln a discursar perante a mulher, que lhe valeram, provavelmente a receita para o Oscar.

Um outro ponto extremamente irritante e usados pelos menos cinco vezes no filme, é a situação de aparecer o Lincoln ou outras personagens do nada, já estando presentes na cena, mas sem o percebermos por o ângulo em que está a ser filmado não o permitir. É giro, concordo, mas uma vez ou duas é uma meia dúzia é outra, sendo cansativo.

6 comentários:

  1. Também é mais ou menos isso o que penso. Um Spielberg já bastante longe de algumas obras memoráveis. Não é um mau filme, mas está a milhas de distância de ter qualidade suficiente para os prémios e nomeações que está a receber.

    Gostei muito do Tommy Lee Jones e da Sally Field, embora achasse que os personagens deles (à semelhança dos restantes) estão muito pouco desenvolvidos.

    Concordo a 100% quando falas da banda sonora (que denuncia sempre o tipo de cena que vem a seguir) e do facto de este não ser um dos melhores papéis do Day Lewis!

    Engraçado surgir no mesmo ano que o Django. A visão da escravatura aparentemente menos pacífica (a do Django), consegue ser bem mais eficaz ;)

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  2. Parece-me um filme onde Spielberg decidiu seguir uma receita. Não tem a chama de um Schindler's List, por exemplo.

    Há demasiados clichès. A quantidade de vezes em que Lincoln nos é mostrado em perfis contraluz fazia-me perguntar se estávamos a olhar para moedas de 1 cent.

    A quantidade de vezes em que tivemos que ouvir citações completas de discursos históricos (Gettysburg Address, 13 Emenda, discurso de tomada de posse), fizeram com que o filme mais parecesse um documentário escolar.

    A própria personalidade não convence. Não vejo ali um líder carismático.

    Vê-se bem, e o tema agarra, mas Spielberg caiu demasiadamente no óbvio.

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  3. Ainda não vi o filme, mas não achas também interessante explorar o outro ponto de vista. O dos jogos políticos e da forma como se alcançou o fim da escravatura. Porque foram os brancos que tiveram de acabar com ela, não foram os negros que a conquistaram.

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  4. Daniel: Sim, concordo plenamente. Não o achei o pior do cinema no género bipic, se assim se pode chamar, mas está longe de ser um Spielberg filme dos tempos áureos, ainda para mais para ter nomeação ao Oscar. Ach o que filmes como The Master ou Hitchcock mereciam mais essa menção.

    Penso que, mesmo que coincidência, até em Hollywood deve haver um pouco de espionagem porque não é a primeira vez que filmes com o mesmo tema, que não passa pela actualidade, saem no mesmo ano. Também prefiro o Django.

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  5. ajanela....: É clichés até dizer chega, é isso que me incomoda em parte, um cineasta ficar satisfeito com a repetição de milhares de outros filmes e ser previsível. Não cativar o público e ainda assim lançar o filme. A parte do perfil é demasiado forçado, nem sei que comentar mais sobre isso. Tratam o público quase de forma ignorante, com isso, e são gratuitos demais nas cenas supostamente emotivas.E as metáforas exageradas também não ajudam.

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