Crítica a "The Master"

03:47:00 Cinema's Challenge 2 Comments

Quantas vezes durante a nossa vida não nos enganámos por algum tempo com algo, só para sentirmos que esta não é um poço de incertezas e existe um sentido em tudo o que nos rodeia? Pensem na vossa resposta, eu já tenho a minha e "The Master" também.
Depois de ver "The Master", desejei conhecer Paul Thomas Anderson, porque é um senhor especial, realmente, para conseguir levar tamanha história, e consequentemente mensagem, ao grande ecrã. Conseguiu transmitir algo difícil em imagens e palavras: a incerteza do ser, a estranheza de quem é estranho, o não saber o que quer, o que será e o que foi. Confundir imaginário e realidade; confundir a nossa existência, crença. Acreditar: para ter esperança, um caminho, significado, objectivo, fé. Ser humano: tal como nos ensinaram, mas qual significado poucas vezes, ou melhor poucas pessoas, o questionam. Saber ir mais além: ser duro e frio, animal, mas mais humano e sensível do que quem se desfaz facilmente em lágrimas. Sentir, em cada poro: a dor, o sofrimento, as emoções...de estar vivo. De não saber o que fazer a seguir, fugindo da rotina e "prisão", com a esperança de ser "livre", mas voltando a ela sempre que pode. De cortar as amarras e voar ou desaparecer (porque por vezes é mais fácil não ter nada do que ter e saber que não é pleno nem seguro e viver com esse medo, principalmente nas relações). Livre de pensamentos e plenamente feliz. A dor de pensar realmente existe e PTA conseguiu projectá-la num grande ecrã, de uma forma sublime e eficaz, ao ponto de ser impossível não ficarmos afectados - seja negativa ou positivamente - , pelo que vemos e juntámos ao que já trazemos na nossa bagagem. Deparámos-nos com uma personagem que pouco tem de particular, se observarmos com atenção, é uma personagem tipo, que explana mais aquilo que o incomoda num comportamento de sacrifício e vícios, para fugir à dor de saber que existe. É alguém que à partida não vive/sente, porém, faz ambas as coisas intensamente, ferozmente, de uma forma dolorosa e quase sádica. Questiona aquilo que o trouxe cá, o rodeia e o faz continuar neste mundo. E, para isso, Joaquim Phoenix foi essencial. Foi a cereja no topo do bolo, porque foi perfeito e não me lembraria de outro actor que tivesse todas os predicados e vivências capazes disso. É possível que se identifique com a personagem, o que ajudou a lhe proporcionar uma essência tão natural para "facilmente" desempenhar a personagem de Freddie Quell - um homem sem rumo, rude, sem controle, sem crenças (até ver), sem um caminho traçado, sem objectivos e sem limites, que desafia o que o rodeia para sentir ou mudar algo, ou que é apanhado pela má sorte sempre que se tenta integrar num novo mundo. É a conjunção de mais que uma crise existencial, de um conjunto de medos e dúvidas que assombram constantemente algumas pessoas que, por isso, veem a vida de uma forma diferente e são inadaptadas, incompreendidas até ao seu último folgo. E que de uma forma mais lata abrange toda a humanidade, de modo diferente, porque alguns preferem escolher a sua própria realidade, do que esperar que esta se construa, revele ou continue incerta (Lencaster Dodd e a sua família são o exemplo perfeito disso).
Philip Seymour Hoffman é o actor que dá pele à personagem de Dodd, designada muitas vezes como Master. Mas não será ironia de PTA? A minha opinião é que sim, que o realizador e argumentista usa essa dominação quase de forma crítica, para o público perceber que todos nós escolhemos alguém/algo em quem/o que acreditar para justificar a nossa existência, para criarmos uma missão e lógica de vida. Seja porque vemos sinais em todo o lado, seja porque descobrimos uma seita, grupo, religião, profissão, amor, mas o que conta é estarmos fidelizados com algo de modo a ter fé, essa que nos mantem vivos e nos integra num todo. Todavia há sempre quem coloque isso em questão, que negue, que desafie, é esse o papel daqueles que julgam Lencaster durante o filme (ou de uma outra perspetiva, é esse o papel de Lencaster com o resto das pessoas; nunca haverá certezas, a não ser da própria boca do realizador-argumentista). E são esses mesmos que fazem Lencaster, que nunca chegamos totalmente a saber se é um impostor ou apenas alguém que está numa eterna e interna "delusion", mas que revela revolta quando questionado, quando confrontado com a probabilidade do que defende ser mentira (porque se o for, a sua vida não passou de uma farsa e deixa de ter sentido). A sua máscara é um pouco levantada depois de escrever a obra da sua vida, por uma das suas pacientes, que, como boa devota, explora a sua obra com tanta afeição que detecta incoerências, essas que Lencaster, quase como bom político ou mestre, cujo ego transcende o corpo, prefere ignorar e desnutrir de relevância. É quase como uma tentativa de deixar a sua marca no mundo, por muito desprovido dessa vontade, e se afirme como um servidor, que a personagem seja.
 
O filme tem uma fotografia magnifica e soundrack à altura. Primada de uma cromática apropriada, que transmite o que PTA provavelmente queria passar aos espectadores. Um mundo real, sem panos quentes, cujas respostas ou finais nem sempre são certos ou felizes, apenas acontecem, revelam-se e deixam-nos soltos e órfãos de fé, sem sabermos, até ao dia do juízo final, de onde viemos, quem somos, o que queremos realmente, como tudo poderia ter sido diferente, etc etc. Coisas que dificilmente um texto transmite, mas que estão aí, em todos, na vossa/minha cabeça, pelo menos uma vez ou outra ao longo da vossa/nossa vida.
 
Para muitos, a película não é muito mais do que um exercício de psicanálise, de tentativa de poder de um ser sobre o outro, contudo pessoalmente acho que, bem pelo contrário, é mais que isso, é uma dança hipnótica de procura de sentido, do caminho certo. Freddie procura isso em Lencaster, olhando-o como o seu mestre. Lencaster olha para Freddie como a sua forma de provar - a si mesmo e ao mundo - que não é um engodo e que realmente consegue "curar" pessoas, libertando-as do outro mundo, dando-lhes a alegria e vontade de viver. Então, para Lencaster, de um modo mais escondido, no seu intimo e para a sua autorrealização, Freddie é o seu próprio Master, que o abandona e o faz querer mudar para outras paragens e afirmar-se mais tarde em Inglaterra. É quase como fugir a um grande amor. Esse mesmo sentimento que faz Freddie perceber que é tarde demais e que a obsessão de procura de sentido da vida e os seus medos o levaram a perder a sua própria vida: todos os seus amores, as únicas pessoas que gostavam de si, andando com mulheres aleatórias, evocando memórias passadas e acabando sozinho com uma imagem de areia, que representa provavelmente todas as pessoas que passaram e não ficaram na sua vida, tal como tudo o que é feito de areia, se destrói e é efémero.
 
Talvez PTA tenha conseguido aqui incutir uma mensagem tão subliminar, actual e universal que chega quase a escapar - a de que a humanidade caminha para um penhasco, que hoje em dia tudo é possível, todos podem ser "mestres", todos podem defender ideias como verdades, enganar e voltar a fazê-lo, desde que tenham seguidores, porque são estes seguidores que lhes conferem poder, que lhe dão voz e os tornam únicos e inquestionáveis. E não é isso mesmo que fazemos? Seja no emprego, casa, sociedade? Seguimos uma religião, minada de incertezas, porque é normal, fomos educados assim e todos seguem esse percurso; um amigo que tende a liderar, mas que facilmente nos ataca ou trai, porém que nos faz sentir aceites e por isso continuamos a segui-lo faça ele o que fizer; (Lencaster e Freddie) um político que dá a cara por um país, mas volta e meia muda as suas "verdades" e promessas e o povo continua na mesma a ouvi-lo, com mais ou menos satisfação, mas sem nada fazer. Queremos ser aceites, sentir que alguém nos compreende, gosta de nós ou nos acha especial. Freddie quis, por uns momentos. Freddie encontrou o seu mestre e teve um rumo. Mas Freddie percebeu que era uma ilusão, que era momentâneo, que se estava enganar, ou se calhar achou que percebeu, pois não é capaz de viver a vida tal como ela é - sem sentido, incerta, mecanizada, social, padronizada e hipócrita, um autêntico jogo de surdo mundo em que todos sabem qual o seu papel, que alguém mente e alguém faz que acredita -, e por isso a rejeita, e é a este jogo vicioso e infinito que continuamos a viver e ao qual chamamos de Vida, que PTA se inspirou para executar este filme. O PTA de Magnólia ou Boogie Nights está lá, diferente, mas espreita, exposto, frio e volátil, entre as ondas que iniciam e acabam o filme.
 

2 comentários:

  1. Muito bom texto! Parabéns ;)

    ResponderEliminar
  2. Bela crítica! Quanto a mim, o filme não me deslumbrou. Percebo plenamente a tua opinião e reconheço muitas qualidades no filme (realização, montagem, direcção de fotografia, elenco), mas não me consegui definitivamente embrenhar no argumento. O génio Paul Thomas Anderson continua, para mim, aceso no There Will Be Blood. Creio que criei demasiadas expectativas para este filme.

    Já agora, parabéns por este belo espaço dedicado ao cinema :)

    Cumprimentos,
    Rafael Santos
    Memento mori

    ResponderEliminar

May the force be with you!