«Capitão Falcão»: O Retrato de Portugal?

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Existem filmes que não foram pensados para o formato de longa-metragem e o «Capitão Falcão» parece um desses casos gritantes. Pelas mãos de João Leitão, chega-nos uma história com quase duas horas, quase...(integralmente) de entretenimento. A verdade é que o filme morre na praia. Embora comece numa, a primeira cena tem pouco de humor, pelo menos ao nível de fazer verdadeiramente gargalhar; esboçamos um sorriso, meio envergonhado porque ficamos perdidos entre a abordagem gratuita e uma certa vontade de empatizar com aquilo que nos é apresentado. Porquê? Porque é o Capitão Falcão, a paródia, o super-herói português pelo qual esperamos mais de dois anos no grande ecrã. Cuja curta-metragem, teasers e pistas nos fizeram crescer água na boca ao longo do tempo, mas que a longo-prazo o fizeram pagar por aquela que é uma ingrata vencedora: o excesso de expectativas. Quero eu dizer que no panorama nacional popular um filme deste género está próximo de uma vitória de elevar de qualidade, naquilo que por cá fazemos, porém penso que não era esse o objetivo desejado pelos seus criadores. «Capitão Falcão» cedo se manifestou como um chamariz de esperança de um filme que alcançasse a simpatia do público mais generalista, entre uma película repleta de easter eggs e outras engendrices para o público mais atento, tanto a nível político como histórico-social, como um filme mais de massas, com humor negro e desenrascado "À Português!". Conquanto, isso não se materializou totalmente. Houveram umas tentativas. Percebemos. Sentimos. Admiramos. Mas não deixamos de ficar desiludidos com o resultado, que não resulta. Por vezes, aborrece, com pena minha, principalmente no primeiro ato; demora imenso a apanhar o seu ritmo e no último ato esmorece e ficamos à espera de mais potência, mais fulgor, afinal é isso "Ser Português!".


Mas nem tudo é negativo, a paródia de época, que para muitos portugueses ainda é encarada como sensível e uma memória recente, é um avançar saudável no cinema feito em português e em Portugal, abordando este lado mais intocável da história que o "o bom português tende em mistificar e engrandecer de forma dura e séria. A história tem lugar em Portugal, na década de 1960. O herói é reconhecido como o mais patriota dos super-heróis -  o mais leal ao ditador António de Oliveira Salazar, chefe de Estado português - , que aparece como a figura que protege a nação contra todas as ameaças existentes e eminentes. Perante isto, surge um novo perigo: os movimentos antifascistas. Junto a combater "o mal" está o Puto Perdiz, o fiel companheiro, tal como Robin é de Batman, tirando um ou outro "pormenor"...A paródia tem algumas boas ideias e momentos eficazes. Falo dos «comuninjas», dos primeiros minutos das cenas do interrogatório, da gag típica deste tipo de paródias de heróis que se auto-sabotam, do ego português de «fazer antes de pensar», da caricatura de algumas personagens históricas como Salazar e do "Sim, paizinho!". Ah! E não podemos esquecer o genérico que está muito bem conseguido. Brilhante. A verdadeira cardeneta de cromos made in Portugal.


O elenco também ajuda. Como seria de esperar, Gonçalo Waddington interpreta bem o papel  do herói fascista que bem poderia ser um vilão e Miguel Guilherme, aquele que é um dos melhores atores que temos, também, o verdadeiro "Salvador da Nação". Há entretenimento, o único problema é ser desequilibrado e dilacerado por momentos mortos, forçados a rasgar o sorriso do espectador. Essa violação é realmente, em conjunto com as expectativas, o erro crasso de Falcão. Poderia ter sido apenas uma boa série, memorável, mas tentou ser um herói que nada teme e o resultado não foi o ideal nem próximo do esperado para o filme (pelo menos por mim).

Qualquer semelhança dos Capitães de Abril com as Navegantes da Lua ou Power Rangers é pura coincidência. A crítica sócio-económica tenta estar presente (a cena de investigação do BPN), mas muito pouco incisiva e coerente; há um esquecimento do propósito do filme em alguns momentos e uma certa confusão daquilo que quer mostrar ou contar, atrapalhado por uma de pensamento que tem esse impostor do humor sempre como prioridade, problema de outros filmes do género com mil vezes mais orçamento. A ação sobrepõe-se ao resto também, mas aí é um ponto positivo para o filme. Temos uma coreografia excepcional, que ajuda a manter os olhos abertos em certos momentos mais alongados. Temos o marido com bigodaça dos anos 60 que bebe vinho tinto e come o seu bacalhau ao jantar (em silêncio), acompanhado pela família, cuja esposa é a típica dona de casa e os filhos os números um da mocidade portuguesa. Um quadro ridículo, mas real daquilo que era Portugal há não tanto tempo: "Deus, Pátria e Família".


«Capitão Falcão» é um daqueles filmes que tenta ser um pseudo-mau-filme, por vezes consegue, por outras falha em demasia, deixando um silêncio constrangedor na sala de cinema - esse que se deve tanto à mentalidade do português não saber rir dos seus piores momentos como da falta de sensibilidade dos autores da película em perceberem a fórmula certa para abordar a sátira de certos episódios de modo a chegar ao sistema límbico de um público mais lato e diversificado.
Em suma: talvez este fosse o filme que precisávamos, mas não aquele que queríamos.

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