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Crítica a "Killing Them Softly": personagens,deixas e câmara arrojadas

O novo filme de Andrew Dominik, Killing Them Softly, tem um duplo significado, impregnado em cada detalhe da sua história. É assim o resultado da mistura de uma história fictícia, adaptada do livro de George V. Higgins (1985) – que envolve roubos, criminosos locais e jogos de cartas – e de uma crítica renitente à sociedade e política, tanto americana como mundial.

Visualmente deslumbrante, principalmente tendo em conta o género, esta é apenas a terceira película realizada e escrita por Dominik. No entanto, mesmo não deixando, depois de visualizada, a sensação de satisfação total, Killing Them Softly nunca nos deixa de barriga vazia. A refeição é completa: serve-nos uma sobremesa com uma bela apresentação de duas personagens fulcrais, mesmo que sejam remetidas a segundo plano mal a personagem de Brad Pitt entra em cena; banqueteia-nos ainda com um prato principal, a aparição de Jackie Cogan (Brad Pitt), que preenche bem o ecrã, sendo tudo menos uni-dimensional pois existe nele uma simbiose de valores e anarquia difíceis de descrever; por fim, a sobremesa, que é-nos posta na mesa de uma forma dura, porém concisa e bem elaborada, ao nos ser revelada explicitamente a intenção de criticar a sociedade e política – em particular a americana.

A direcção é muito bem confeccionada. Depois de visualizado, há poucas dúvidas de que não seja quase perfeita para o que se pretende com o filme. Tal como os movimentos de câmara, as deixas são também arrojadas. É de ressalvar também o excelente argumento. Mordaz. Desafiante. Inesperado. Inteligente. Frontal. São muitos os adjectivos possíveis para caracterizar este excelente texto, que não nos cansa, mas alicia. Texto esse e performances acompanhadas de excertos de discursos políticos, enquadrados naquilo que se revelaria a era pós- Bush. Toda a construção, quase meticulosa, de peripécias das personagens, metaforizando os excertos, tem um efeito admirável. Nunca nos dando a sensação de documentário ou de filme político, mas, sim, de algo mais, culminando num thriller de crime dramático e, por vezes, quase cómico, ou tragicómico, devido ao humor negro constantemente usado.
O próprio título remete-nos a uma mensagem implícita: Killing Them Softly serve de alusão à narrativa e ao que se passa pelo mundo. Todos nós, aos poucos, estamos a ser mortos. Seja por a nossa fé, crenças e voto serem desprezados ou ultrajados, ou, quase provocadoramente, o título insinuar que com a película, as críticas tecidas são uma forma de dar um tiro de lucidez na sociedade.

Seria quase indecente fazer uma analogia, mas se essa fosse possível seria a um produto dos Cohen (personagens e atmosfera), traçado de um toque de Tarantino (no argumento, com diálogos longos e ricos) com algo de fincheriano lá no meio (realização). Talvez sejam as caras conhecidas ou a índole reveladora e céptica quanto às intenções de algo mudar, como um país, quando as próprias pessoas não o fazem, mas o filme deixa-nos uma marca e angustia que nos obriga a ditar o veredicto: gostamos ou não?
Porém não é isto que ele nos pede no seu final, ele pede-nos apenas que todos pensem, reflictam, sintam o que realmente é verdadeiro, o que acontece à nossa volta e é real. Pois, desde sempre foram vendidas ao homem muitas ideias; é fácil falar, é fácil prometer, é fácil julgar, mas não é fácil cumprir: “ My friend, Thomas Jefferson is an American saint. Because he wrote the words all men are created equal, words he clearly didn’t believe since he allowed his now children to live in slavery. He’s a rich wine snob who’s sick of paying taxes to the brits. So, yeah, he writes some lovely words and aroused the rabble and they went and died for for those words while he sat back and drank his wine and fucked his slave girl. This guy wants to tell me we’re living in a community? Don’t make me laugh. I’m living in America, and in America you’re on your own. America’s not a country. It’s just a business. Now fuckin’ pay me“. in Killing them Softly, 2012.”

Texto originalmente publicado em Arte-Factos.

Crítica: "Charade" (1963)


Se para uns os anos 60 foram sinónimo do declínio de Hollywood, para outros as transformações sociais vividas nessa época pelo mundo obrigaram a indústria a dar espaço aos novos cineastas e ideias. Foi uma altura em que o cinema americano passou a ter novos rumos com a produção independente de baixos orçamentos, iniciada pelo realizador John Cassavetes. Por isso, não é de estranhar o surgimento de filmes que espelhassem isso, ostentados pelo comportamento jovem e metamorfismo. 

Mas, apesar do contexto vivido no sistema cinematográfico na época, isso não travou realizadores já consagrados, como Stanley Donen, de levar ao grande ecrã grandes clássicos - como é o caso de “Charade”, de 1963. Foi a simbiose de comédia, mistério e romance que o tornou um dos filmes mais lembrados da história do cinema e um dos mais famosos da filmografia de Donen; não esquecendo, todavia, outros como Singin' in the Rain ou Two for the Road. Porém não foi só o argumento escrito por Peter Stone e Marc Behm, que cativou e, ainda, cativa o público. Uma dupla-chave é a principal responsável. Audrey Hepburn e Cary Grant elevaram ainda mais a obra, que começa tão bem logo nos créditos animados, nada comuns para a sua época. 
Em Charade o suspense não é negativo. Apesar da tensão sentida, este estimula o público que anseia por aquilo que vai acontecer a seguir. Imprevisível e controverso, o filme faz com que o espectador siga a personagem de Hepburn (Regina Lampert), acompanhando-a enquanto esta foge de um trio de bandidos, que querem a fortuna do seu falecido marido, do qual, de forma inexplicável, Regina pouco sabe do seu passado. No entanto, o enredo não é assim tão linear e descomplexo. Uma outra personagem, Peter Joshua (Cary Grant) vem mudar e complicar aquilo que já parecia demasiado intrincado. E o resto pode ser visto na película, que além de surpreender ao longo de duas horas, passa a correr… Com prestações deliciosas de Grant-Hepburn, e com Paris como plano de fundo, o filme ficou também conhecido por conter influências de outros subgéneros: thriller de espiões, já pela sinopse percebemos isso; screwball comedy, surgida nos anos da Grande Depressão, com características muito semelhantes ao filme noir, mas que se distingue dele ao ter uma personagem feminina (Regina) como líder da relação da tela, desafiando constantemente a personagem masculina (Peter); e, por fim, whodunit (Who has done it?), caracterizado por ser uma variante dos filmes de detectives, onde a resolução do enigma da história é o ponto fulcral de interesse, sendo que o público adopta o papel de detective ao qual são dadas pistas ao longo da história.

De todas as características, e pela qual é mais conhecido, Charade é ainda hoje descrito como "the best Hitchcock movie that Hitchcock never made", sendo comparado a North by Northwest. Seja pela narrativa ou influencias, é difícil ficarmos indiferentes a uma obra tão completa e admiravelmente bem conseguida, pois mesmo não sendo sequencial, não se perde nos seus intentos, e faz com que o público se sinta parte integrante do filme, desde o seu início até ao seu fim.
Texto originalmente publicado no site Arte-Factos.

"Seeking a Friend for the End of the World": o amor está onde menos se espera

«O Fim do mundo» é uma expressão que tanto literalmente como metaforicamente desperta o melhor ou o pior das pessoas. O segundo caso é o mais comum em muitos dos filmes estreados nos últimos anos que têm como pano de fundo a profecia dos Maias. Ataques de zombies, desastres naturais, invasões alienígenas, pandemias, armas de destruição maciças, entre outros, são os panos de fundo usados para contar muitas histórias apocalípticas. Todas com abordagens bem dispares, porém todas com esse elemento em comum: o fim da humanidade tal como a conhecemos. São assim filmes que põe o público a pensar, tocando nos seus mais profundos medos. Dos mais recentes temos «4:44», «Melancolia», «Contágio» e de «The Road», que exploram os últimos dias de vida da humanidade. São obras que tratam o assunto de uma forma mais negativa e mostram a pior faceta da sociedade; quando esta é confrontada com a sua luta pela sobrevivência. 

Mas ao contrário destes, «Seeking a Friend for the End of the World» propõe uma receita bem mais optimista e talvez mais real quando se depara com o fim do mundo. Não querendo, por isso, dizer que não tem um tom dramático e desesperante, inerente ao próprio tema, porque o têm. Aliás, não o esconde e nem oculta que não pretende equilíbrios entre os géneros, mas, sim, um filme que flua por si mesmo. Temos comédia: com alguns momentos digno no início do filme (não fizesse Carell parte do elenco), porém vai-se tornando mais gratuita com o desenrolar deste, acabando por perder as gargalhadas do espectador. Temos drama: mesmo que meio mascarado com algum humor negro, há episódios bastante tocantes, que resultam bem. São fortes ao ponto de pensarmos no nosso percurso de vida e de nos comover. Temos romance: dotado de alguns momentos bonitos e até anti-românticos, o que os torna, por ironia, ainda mais românticos. Contudo, a uma certa altura da história existe também um excesso de fofura e melosidade que não sabemos bem de onde veio nem para onde caminha, acabando por manchar o tom descomprometido do filme. Para não falar do restante elenco, que é tão secundário e desnecessário que sem o mesmo o filme teria o mesmo sentido. De tudo, é talvez nestes dois pontos aqui que a realizadora e argumentista Lorena Scafaria condena o filme à mediocridade

Na história de «Até que o fim do mundo nos separe» o mundo tem os dias contados; um meteorito vai cair sobre a Terra dentro de poucos dias. Sem grandes amigos e sem esposa, Dodge (Steve Carell) vê-se sozinho. Enquanto todos optam por aproveita os últimos prazeres da vida, este não o faz. Em vez disso, acaba por conhecer a sua vizinha Penny (Keira Knightley), uma rapariga pouco comum. Com o fim do mundo próximo, ambos decidem entreajudar-se: Dodge ajudará Penny a ir ter com os seus pais e Penny ajudará Dodge a reencontrar a sua namorada de secundário. E é a partir desta premissa que a história ganha contornos.

Mesmo que esteja muito longe de ser um grande filme, tal como aconteceu com «Nick and Norah’s Infinite Playlist», com o argumento também assinado por Lorene Scafaria, o filme que faz de Carell e Knightley um casal consegue surpreender e entreter. Talvez o faça por nunca ter elevado as expectativas durante a sua promoção. Ou por não se ter apresentado ao público como um filme presunçoso: como o melhor do seu género, como muitos o fazem. Vestindo à primeira vista a pele de um road movie, acaba por ser bem mais que isso: É uma história de amor; é uma história de coragem; é uma história caricata tao impossível que se torna possível. Focando-se mais em explorar as vontades humanas e aquilo que as move. Tanto daqueles que fazem de tudo para ter uma ultima experiencia - através de orgias, festas intermináveis e invasão de casas – e que perdem o lado racional, até aqueles que procuram uma última oportunidade para saberem qual o sentido da sua vida e não deixam de ser conscientes – que é o caso da personagem principal do filme, Dodge.

A película aquece-nos a alma com temas como a solidão, a busca do verdadeiro amor, a coragem e a felicidade, que muitas vezes são esquecidos neste género de filmes. Mostrando-nos ainda que quem é bom talvez o continue a ser e prossiga assim até ao fim dos seus dias.


O melhor: O elenco e tom inicial descomprometido do filme, que oscila entre vários géneros sem nunca se tornar pesado.
O pior: O excesso de “mel” em algumas cenas e o restante elenco que pouco tem a oferecer ao público.

Nota: 6/10

Crítica. "To Rome With Love": Todas as relações vão dar a Roma


O génio incansável da comédia-romântica, Woody Allen, brinda-nos desta vez com «Para Roma com Amor», a película onde todas as relações vão dar a Roma. O realizador, que se propõe a fazer um filme por ano, repete com esta nova obra a proeza de voltar a apaixonar e encantar o público. Mas, agora, com as cores e música de uma outra cidade – Itália -, acompanhadas por um elenco de luxo com actores de múltiplas idades e nacionalidades. 

Ao contrário do que vimos em «Meia-Noite em Paris» (2011), onde havia apenas uma personagem central, à volta da qual girava toda a história, no novo filme de Allen o mesmo não acontece. Este aposta num conjunto de histórias paralelas – mesmo que tenham espaços e tempos diferentes -, tal como ocorreu em 2010, com «Vais Conhecer o Homem dos teus Sonhos». No entanto, há algo nos filmes com muitas personagens deste realizador que não me consegue agradar. Talvez por descurar outros pormenores mais minuciosos em prol da tentativa de coordenação de uma história mais complicada. Algo que não costuma acontecer nas suas narrativas mais “simples”, que acabam por ser mais fáceis de acompanhar pelo público, a meu ver.


Em linhas gerais o filme mostra-nos as vidas de alguns visitantes e residentes aleatórios de Roma. Tal como os modos muito particulares de lidarem com os seus problemas amorosos e confrangimentos pessoais. Esta película consegue envolver mais o público com a ajuda de um argumento bem inteligente. Temos quatro narrativas principais: um jovem casal romano-americano que resolve apresentar os respectivos pais; o encontro entre o passado/presente e o futuro metaforizados por um jovem arquitecto norte-americano e as suas escolhas amorosas; um homem banal que do dia para a noite se torna famoso sem saber o porquê; um casal italiano recém-casado que numa bela tarde tem novas experiências sexuais. Todas as histórias são desconexas, mesmo que tenham um ponto em comum: o impasse inerente à escolha das opções certas na vida. Esta mensagem é dada através do que vai acontecendo com as personagens de acordo com as suas acções.

Não caindo na tentação de se revelar um filme mosaico, «Para Roma com Amor» apresenta uma grande dinâmica ao expor várias personagens e as suas respectivas histórias. Com uma fotografia incrível e banda-sonora magnífica, a película vale bastante a pena ver e dá-nos vontade de apanhar repentinamente um voo rumo a Itália. Embora não me agrade muito, penso que o saltear de histórias esteja estrategicamente pensado por Woody Allen para dar ao espectador a verdadeira sensação de visitar Roma – devido ao seu ambiente cosmopolita babelesco. E para esse efeito nada melhor do que pegar em exemplos vivos existentes numa das mais célebres e visitadas cidades do mundo, onde há o encontro de pessoas provenientes dos quatro cantos do globo.


Caricata. Mordaz. Burlesca. Anómala. Moralista. São as particularidades desta comédia-romântica, que mistura um pouco de surrealismo, como aconteceu no seu antecessor, «Meia-Noite em Paris». Ainda que toque um pouco em alguns calcanhares de Aquiles subjacentes à política de Itália e aos media, por ela comandada. Mesmo que o faça de forma pouco explicita; Woody não falha. 

É também de não esquecer o interessante elenco aqui reunido: como Jesse Eisenberg, Roberto Benigni, Ellen Page, Penélope Cruz, Judy Davis (entrou nas «Faces de Harry»), Alec Baldwin e até Woody Allen. De diferentes “cinemas”, nacionalidades e gerações, a única semelhança entre eles é o facto de todos já terem feito comédia.

Embora sinta uma certa falta de ver Woody Allen arriscar, como fazia nos velhos tempos, não posso negar que fiquei deliciada com o seu novo filme. Não tem um espírito inovador, é até chamado por muitos de mais um produto de “cineturismo”, porém olhamos e continuamos a ver em cada frame a marca de Allen. O que depois de tantos filmes e anos de carreira é de louvar.


O Melhor: Um elenco de peso e diversificado, acompanhado de uma excelente banda-sonora e fotografia.

O Pior: Várias histórias paralelas, que acabam por confundir o público e limitar o desenvolvimento psicológico das personagens apresentadas.

Nota: Podem  ver esta crítica também  aqui, no site C7nema.


Crítica a "Sweet and Lowdown": Sean Penn e uma guitarra


A poucos dias de estreia de "To Rome with Love", hoje, assisti a "Sweet and Lowdown", também escrito e realizado por Woody Allen. O filme é de 99 e é protagonizado por Sean Penn, tendo ainda Samantha Morton, num papel mais ou menos destacado em relação ao restante cast, e Uma Thurman como nunca a vimos antes. 

A narrativa fala-nos de um guitarrista ficcional dos anos 30 chamado Emmet Ray. Este supostamente tem uma grande admiração por Django Reinhardt, que é considerado o melhor guitarrista do mundo, sendo Ray o segundo. Contudo, Emmet tem várias regras pelas quais rege a sua vida, sendo uma delas a de não se apaixonar ou ficar demasiado tempo com nenhuma mulher. Por isso, vai abandonando-as, fazendo isso inclusivamente a Hattie, uma rapariga muda com a qual viveu durante algum tempo. Todavia, quando encontra outra mulher e se casa, esta acaba por o deixar. Tudo isto vai levar a vários episódios, alguns deles que incluem gangsters, traições e a conclusão de que no fim de contas sempre esteve apaixonado pela mulher que desprezou: Hattie.

Apesar desta obra de Allen não ser nada de especial, a meu ver, o realizador continua a conseguir brindar-nos com histórias que têm sempre o seu quê de moralista e fascinante. Moralistas porque transmitem uma mensagem, que neste filme passa por aquele que quer tudo e no fim acaba por não ter nada. Assim como a ideia de que quando abrirmos o coração, as outras paixões também são aprimoradas, e tudo se torna melhor.

"Sweet and Lowdown" é assim um filme que tinha todas as potencialidades para ser bem mais atractivo, no entanto acaba por aborrecer um pouco à medida por ser demasiado previsível e centrado na personagem de Sean Penn, que pouco tem para dar. Além de ser caricata e espelhar um pouco aquilo que todos sentimos às vezes - a necessidade de ser livre -, não passa muito disso e repete até a exaustão a mesma ideia.

Crítica a "Funny Face": 3 vezes Audrey


Se já é encantador vislumbrar no ecrã uma Audrey Hepburn que apenas representa, imaginem uma Audrey que também canta e dança. Sim, é magnífico e apaixonante só de pensar. Mas a boa notícia é que não é preciso conservarem isso como uma utopia, pois em “Funny Face” (1957), de Stanley Donen, a actriz tem este triplo papel. Ao contrário do seu anterior filme, “My Fair Lady”, Hepburn canta realmente, não havendo dobragens, sendo, portanto, na sua carreira este o seu primeiro filme musical. Ao longo da história, é possível vermos a actriz a actuar, dançando e cantando, a solo e em dueto, várias vezes: pela primeira vez, sozinha, interpreta a canção “How Long Has This Been Going On?”; depois com Fred Astaire (Dick) “S Wonderful”; lado a lado com Kay Thompson (Maggie) “On How you Be Lovely”; e muito bem acompanhada por Astaire e Thompson “Bonjour, Paris!”. No entanto, apesar das performances de Astaire e Thompson serem perfeitas a todos os níveis – falo de dança, canto e representação -, embora me custe admitir, por nutrir um grande fascínio por Audrey, esta é tecnicamente inferior a estes dois gigantes por arranhar um pouco os ouvidos dos espectadores. Contudo, apesar de não sermos comtemplados com uma prestação encantadora como a de “Moon River”, em “Breakfast at Tiffanys”, é impossível não ficarmos embebecidos pela imagem e talento da actriz no que diz respeito à arte de actuar. Mesmo com algumas falhas, não há um único momento em que haja vontade de desviar o olhar. Muito pelo contrário, raras são as vezes em que não sorri enquanto a via dançar ou cantar. Mesmo tendo consciência das suas limitações, Audrey Hepburn continua a ser o punctum, ou seja centro das atenções, durante todo o filme. Seja nas performances musicais ou apenas representando, a sua presença não deixa que Astaire ou Thompson, ou qualquer outra personagem, lhe roubem protagonismo por terem uma prestação artística superior. Aliás, em termos de dança, sendo ela uma ex- bailarina, consegue surpreender. É neste aspecto que uma das letras de uma das canções presentes no filme ganha ainda mais significado – “You can’t blame me for being amorous. S’wonderful, s’marvelous” -, porque sem grandes esforços ou snobismos Audrey Hepburn é realmente no filme e ainda hoje, passados tantos anos, um ícone universal e transversal de mulher. Ainda sobre engenho, não podemos esquecer que Astaire é aquele que ficou conhecido por ser um dos grandes ícones, ao lado de Gene Kelly, dos filmes musicais, numa altura em que era moda o género em Hollywood. E por esta razão, na época, Hepburn impos a presença deste para assinar o contrato de participação no filme. Acredito veementemente que sem ele a obra não seria a mesma coisa.
Similar a muitos enredos de comédia romântica, a história apresenta-nos uma revista de moda que está a tentar fazer uma sessão de fotos com uma modelo banal, mas que rapidamente percebe que falta algo ali. Uma nova cara que represente a revista e inspire as mulheres. Então longe das passerelles, ao acaso, quando invadem uma antiga biblioteca para acabar uma sessão, acabam por encontrar a rapariga perfeita – é ela Jo (Audrey Hepburn). Jovem, inteligente e com algum estigma ao mundo da aparência, a rapariga nega-se a tornar-se modelo. Contudo, isso muda, depois de Dick (Astaire), o fotografo refinado e mais velho, a beijar. É assim que Jo vai conhecer Paris, tornando-se modelo e usando como desculpa a vontade de também conhecer um célebre filósofo, cuja doutrina (o empatismo) é a sua grande inspiração. É daqui para a frente que tudo se complica: entre amores e desamores, sessões fotográficas, ideias adversas, juventude e vivencia, o resultado do filme é um par romântico que pouco têm em comum a não ser os sentimentos que sustentam um pelo outro.
Apesar de ter ficado encantada com “Funny Face”, existem também aspectos menos bem conseguidos no filme. Falta a este alguma coesão no que toca à história. Há um pouco a tentativa de pôr de parte a idade da personagem do fotógrafo, que acaba por causar inicialmente alguma estranheza. É como tapar o sol com uma peneira, algo que não resulta e tem um efeito inverso e um pouco ridículo. Penso que a melhor abordagem para contrariar isto seria algo semelhante ao que acontece em “Sabrina”. Em que é clara a idade da personagem desempenhada por Humphrey Bogart, também mais velha do que a de Hepburn, alimentando assim a problemática do filme. Também é um bocado batida a ideia de “rapaz salva rapariga” como se Jo se tratasse de uma rapariga totalmente ingénua e indefesa. Mas estamos no final dos anos 50 e é algo ainda admissível no cinema americano. Mesmo assim, a presença de Audrey Hepburn, em parceria com Astaire, não deixa de ser encantadora e convincente. Há imensa química sem haver grandes toques ou obscenidade. É um romance clássico e enternecedor que vai de encontro à ideia de “empatismo” tantas vezes apresentada ao longo da história. Todavia, não é só Hepburn e Astaire que fazem um excelente papel, Kay Thompson também o faz: é neurótica, sabe se mexer e fascinar à sua maneira e encarna na perfeição a editora da revista de moda, que parece ter sido um apriori de personagens de filmes mais actuais como a que vemos em “The Devil Wears Prada”.
“Funny Face” foi a quarta longa-metragem na carreira de Audrey Hepburn. Antes desta, apenas integrou o elenco de “Roman Hollyday”,  de William Wyler (1953), de “Sabrina”, de Billy Wilder (1954) e de “War and Peace”, de Henry King (1956). O filme de Stanley Donen foi considerado uma obra um pouco à frente do seu tempo devido à criatividade do realizador na forma como o compôs – split screen, a tela dividida em duas, e até em três partes, grafismos, desenhos no meio da acção e muito cuidado com as cores e fotografia. É de apontar também que foi usada uma alta resolução chamada de VistaVision Technicolor, criada em 1954 pela própria Paramount Pictures. Relativamente ao filme, é ainda fundamental ressalvar que a dedicação, tanto física como psicológica, empenhada por parte de Hepburn foi colossal, uma vez que esta estava a filmar ao mesmo tempo outro filme realizado por Billy Wilder também gravado em Paris – “Love in Afternoon” (1957).
Todavia, o filme tem tantos predicados que é difícil os mencionar. Mas tentarei ser sintética e referir os mais importantes. Como as belas músicas interpretadas ao longo da história, cujos autores merecem uma salva de palmas de tão refrescantes e apropriadas que são. Estas conferem ao filme aquilo que as da versão original homónima, estreada trinta anos antes, na Broadway, também com Astaire no elenco, não conseguiu. Falo de magia e energia e sobretudo intensidade emotiva, aliada a um excelente grupo de actores.
A obra de 1957 é um musical soberbo e apaixonante, que não consegue deixar ninguém indiferente, tendo um uso altamente admirável da cor. Não esquecendo que toca num ponto frágil, a relação de amor-ódio entre franceses e americanos, tal como vários filmes também o fizeram. Falar de semelhanças de “Funny Face” com outras obras em que Audrey marcou presença é fácil. Basta pensarmos em “Sabrina”, na qual a actriz também interpreta uma personagem pobre que ruma a Paris e muda o seu aspecto de “gata borralheira” para uma autêntica “princesa”. Ou ainda podemos falar do facto de em ambos a actriz contracenar com actores mais velhos e ser dona de uma personalidade invejável, que ao mesmo tempo é ingénua, mas também audaz.

Mas não foi apenas a nível técnico e performativo que o filme foi valorizado. Aclamado pela sua irreverencia e eclectismo, a obra que juntou Hepburn e Astaire no grande ecrã foi bem recebida pela crítica em geral, congratulada em pequenos festivais e nomeada em quatro categorias dos Oscares – argumento original, direcção artística, fotografia e guarda – roupa. No entanto, acabou por não vencer nenhum, tornando-se apenas uma obra de culto cinematográfica, que vive até hoje no coração dos cinéfilos e fãs da actriz.
Podem ver também esta crítica no site Arte-Factos, para o qual colaboro.

Crítica a "Ruby Sparks": uma história que morre na praia



Muitas vezes, no cinema, o “início” ou o “final” de uma história é o elemento essencial para ajudar o público a decidir o que acha de um filme. São dois momentos cruciais para o espectador, que espera nestes o máximo de qualidade: quer pelo facto, no caso do “início”, nos apresentar pela primeira vez a história e personagens, quer, no caso do “final”, por nos mostrar o desfecho destas. E é o duplo falhanço destes dois momentos importantes que condena um filme. O que se aplica a “Ruby Sparks”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris («Little Miss Sunshine»). 

A obra conta a história de um romancista, Calvin (Paul Dano), que sofre de um perturbador bloqueio criativo que atrapalha o desenvolvimento de seu novo livro. Com muitos problemas emocionais, este começa a sonhar e a escrever sobre uma personagem feminina, apaixonando-se aos poucos por ela. É aí que surge Ruby Sparks (Zoe Kazan), que inicialmente é a personagem do seu novo livro, mas que pouco depois ganha vida, passando a conviver e a relacionar-se com Calvin e a família. Querem princípio mais cliché que isto? Se querem, então vão ter esse momento no final do filme. O “felizes para sempre” não é poupado. E a história em vez de arriscar e contrariar todas as tendências do previsível, como acontece no final de «500 Dias de Verão», fica-se pela conclusão pressentível.

Apesar de esta ser uma daquelas películas que nos deixa, quando saímos da sala, no limbo – do “gosto” ou “não gosto”/ “bom” ou “mau” –, à medida que vamos reflectindo sobre ela percebemos os vários descuidos presentes na sua narrativa. Não se fica apenas pelo início e final pouco entusiasmante. Ao cair na tentação do uso constante do cliché e da câmara tremida, levando o público como garantido por usar a máscara de filme indie, «Ruby Sparks» não consegue igualar o patamar de outras obras do género - como «Juno» ou, da sua antecessora, «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos».

Não existe uma visão diferente, mas apenas mais do que já vimos por aí aos pontapés em outras comédias românticas. Aliás, existe um filme de 2006, com a Emma Thompson e Will Ferral, que tem uma base de história muito semelhante, chamado «Contado Ninguém Acredita». Em que uma escritora deprimida e solitária acaba por criar uma personagem e esta ganha vida, tal como o que acontece na película da dupla Dayton-Faris. Logo, é inicialmente aniquilado mais um dos factores que poderia ser um ponto a favor do filme. No entanto, a lista de falhas não se fica por aqui. Não existem personagens com as quais criemos empatia ou soframos conjuntamente à medida que a história se desenrola. Não há muito mais do que um conjunto de juras de amor forçadas e extremamente melosas, que nos fazem torcer o nariz. Provavelmente, problemas que teriam sido evitados por um argumentista mais experiente; o que não é o caso de Zoe Kazan, argumentista do filme e também co-protagonista. Curiosamente, esta tem uma relação amorosa com Paul Dano na vida real, o que pode explicar a sua presença no filme e o exagero de momentos “melosos”, que acabam por enjoar o público. 

Apesar de todas as críticas negativas já assinaladas, «Ruby Sparks» tem algumas qualidades, mesmo que acabem “por morrer na praia”. A mensagem do filme, mesmo que envolta em toda a confusão suscitada por muitas personagens e episódios desnecessários, é boa. Passando pela ideia de que a idealização de alguém, ou o amor platónico, feito à nossa imagem e vontades, é sempre algo perfeito e que nos agrada. Mas, quando se torna real, por muito irrepreensível que nos parecesse, com o tempo, acabamos sempre por encontrara pequenos defeitos e desagradar-nos. É necessário, portanto, aceitar as diferenças para chegar ao amor. E é esta a simples mensagem que nos tenta apresentar o filme, mesmo que use a abordagem errada para isso. O elenco também não é mau, tem algumas caras conhecidas, que dão lugar a personagens caricatas: como Antonio Banderas (Mort) ou Annette Bening (Gertrude). Mesmo que tenha outras sensaboronas como a de Ruby.

A banda sonora e fotografia também estão bem aplicadas, conferindo alguma vivacidade e ritmo ao filme. O que é já recorrente em filmes deste género, que nos últimos anos começaram a ser cada vez mais frequentes. E aos quais não gosto de chamar indie, por em pouco se assemelharam aos que merecem o desígnio original, mas sim “neo-indie” ou “pro-indie”, no máximo.


Mesmo assim, a narrativa consegue surpreender e entreter o público pontualmente - confesso que me levou a dar até umas gargalhadas. A meio do filme, parte em que a história se desenvolve e parece até um pouco prometedora temos humor inteligente e a apresentação de uma família caricata, a de Calvin. Contudo, não dura muito. A aparição dos membros da família proporciona momentos soberbos, mas que acabam por ser mal explorados. 

Existem demasiadas pontas soltas que nunca chegam a ter um nó e vários indícios largados ao longo do filme, que pouco ou nada alteram o seu sentido global. É como um bolo cheio de enfeites, que depois de retirados vemos o quanto é banal. Entre muitos outros aspectos e personagens que são esquecidos com o desenrolar da história, deixando o público confuso. Para não falar, que se prende demasiado à fantasia, procurando sempre o caminho mais fácil e ilógico, muito distante do que acontece na vida real. 

Em suma, «Ruby Spark» nas mãos certas e com uma melhor co-protagonista e argumentista poderia ter dado um belo filme, mas ficou-se pela mediocridade. Talvez no papel parecesse bem, mas na tela não resulta. No entanto, consegue entreter e tem alguns “altos”, que fazem com que o tempo passado à frente da grande tela não seja um desperdício. Agradando provavelmente aos menos picuinhas e fãs do género. 

(Ouçam a soundtrack porque vale a pena)

Nota: 5 

Melhor: A mensagem transmitida pelo filme e o momento em que Ruby conhece a família de Calvin. Dando especial ênfase ao irmão Harry (Chris Messina) e ao padrastro Mort ( Antonio Banderas). 

Pior: O início e o final cliché. Para não falar da base da história pouco original e dos momentos demasiado “melosos”.

Podem ver esta crítica também no site C7nema com o qual colaboro actualmente.

Crítica: «2 Dias em Nova Iorque»


"2 Dias em Nova Iorque" mostra que é possível repetir-se a mesma receita, sem que por isso o resultado culmine num prato já saturado e pouco original. É assim que vejo este filme servido por Julie Delpy: como um prato delicioso integrado numa refeição que começou há meia década, com "2 Dias em Paris", e que não arrefeceu nem se estragou, continuando a ser bem-servida.

Foi já há 5 anos com o filme franco-alemão, “2 Dias em Paris”, que a realizadora chamou à atenção do público e crítica. Este apresentou-se como uma lufada de ar fresco no mundo de Hollywood, no qual poucas vezes vemos humor de qualidade. Na altura, o estilo e humor de Delpy impressionaram muitos críticos e foram comparados aos do grande génio da comicidade Woody Allen. Inteligente. Sarcástico. Neurótico. Realista. Tragicómico. São os quatro pontos base que tecem a ponte entre os dois realizadores, para não falar na tendência de integrarem o cast dos seus próprios filmes, serem realizadores e argumentistas, de terem na base das suas histórias o tema relações e de escolherem como plano de fundo diferentes cidades do mundo. E se acho que esta equiparação é justa? Penso que existe realmente pontos de contacto entre os dois realizadores, mas o facto de Julie Delpy ser mulher e europeia já lhe confere uns ingredientes bastante distintivos para não ficar apenas na sombra de outro excelente profissional da área e ser dona do seu próprio cinema.


Em «2 Dias em Nova Iorque» a francesa voltou a reunir grande parte do elenco (que continua a ser soberbo) que deu corpo à sua família no primeiro filme, o que favoreceu a sensação de familiaridade e continuidade da nova história. Além de que nos é explicada de forma natural a ausência de algumas personagens, seja pela morte ou separação, conferindo um tom lógico à narrativa; o que poucas vezes acontece originando plot holes. Nesta sequela, são ainda adicionadas novas personagens: um novo namorado, os seus parentes e filhos. Chris Rock (Mingus) é uma delas e faz par romântico com a actriz-realizadora Delpy (Marion). A dupla Delpy-Rock está a altura, não destoa e faz-nos sentir vontade de os ver a ter o “tal final feliz”. Ainda sobre Rock, é de enfatizar que este acaba por surpreender ao conseguir estar apto para o respectivo papel, distanciando-se da ideia da personagem de filme de paródia em que habitualmente o vimos. Albert Delpy, pai da realizadora na vida real e no filme, continua a integrar o elenco e a fazer um papel absolutamente hilariante – entre o perverso e o adorável.

Entre «Dois dias em Paris» e «Dois dias em Nova Iorque» são perceptíveis algumas semelhanças com a dupla de filmes pela qual Delpy ficou conhecida no mundo do cinema - «Depois do Amanhecer» e «Depois do Anoitecer». Seja pela semelhança ao se focar nos problemas das relações e choques culturais ou da passagem de anos entre filmes que dão um tom de veracidade à história, é impossível não se pensar nas duas obras de Richard Liklater quando se vê um produto de e com a realizadora-actriz. O que não é por si negativo, muito pelo contrário, é sinal de que estamos perante uma obra bem interessante e distante do que se vê geralmente nas salas de cinema.


Os amores e desamores, o cansaço, a rotina, os filhos, o avanço da idade e a coragem de procurar uma nova oportunidade de se ser feliz, deixando para trás o passado, são algumas das características desta recente comédia. Adicionando ainda um momento surrealista sobre a venda da alma e o conflito, muito próprio da sociedade, entre o acreditar/cepticismo, que remete à incerteza do ser humano. Esta película extravasa a ideia de criação de personagens-tipo, criando, à semelhança de “2 Dias em Paris”, pessoas únicas, mas com problemas subjacentes às relações modernas e choques culturais. Posso dizer que esta sequela me deixou satisfeitíssima e é dona de um humor peculiar. Humor esse que nos faz soltar gargalhadas, que não é politicamente correcto, tecendo críticas às práticas e estadistas americanos e franceses, que não tem medo de dizer palavrões por parecer menos erudito, que é inteligente e deleitoso q.b. para levar o público a querer ver mais e mais filmes assinados por Julie Delpy.

  • O melhor: O humor inteligente e pouco regular de Delpy, afastando-se das personagens-tipo e criando personagens singulares e cativantes com as quais mesmo assim conseguimos criar empatia. E ainda um cameo surpresa de um excelente actor.
  • O pior: A voz-off usada para explanar momentos de reflexões e morais, as quais resultariam melhor de um modo menos explícito recorrendo a imagens ou situações concretas conferindo assim ao espectador um papel mais activo.

Também podem ver esta crítica no site C7nema com o qual colaboro actualmente.

Crítica "Les Chansons d'Amours", de Christophe Honoré


Les Chansons d'Amour merece ser apresentado com o título original em francês por tudo aquilo que representa. Este musical, assinado por Christophe Honoré,  fala da história de amor de uma personagem entre várias, que é dividida em três capítulos - a partida, a abstinência e o retorno.

Ismael e Julie são um casal que à partida parece não se distanciar muito dos casais normais. Mas pouco tempo depois do filme começar percebemos que existe mais um elemento, consentido por ambos - Alice. No entanto, o que torna a história fenomenal é o facto de não ficar confinada a um casal que começa a ter problemas por ter uma relação a três. Não, não mesmo, Les Chansons d'Amour vai muito mais além, estravaza qualquer pensamento sobre o que irá acontecer a seguir. Aborda de um modo descomprometido as frustrações das relações amorosas e as mudanças proporcionadas pela modernidade. Como tão bem Honoré nos habituou aos amores e desamores, também este filme nos mostra um pouco desse mundo, da descoberta do verdadeiro amor; que não escolhe idades (como em La Belle Persone) ou sexos.

Neste filme temos um Garrel diferente. Mais sentimental, ao mesmo tempo que incompreendido, mais humano e carinhoso. Mais próximo de um rapaz que poderíamos casualmente ter conhecido, que nos desperta uma empatia para com a sua personagem.

A dupla do realizador com Garrel funciona ás mil maravilhas. É já difícil pensar em um filme de Honoré sem o actor de The Dreamers. No entanto, as actrizes Ludivine Sagnier (Julie) e Clotilde Hesme (Alice) são fabulosas, com destaque para esta última, que foi inclusive nomeada pela sua performance em alguns festivais. E que, curiosamente, em Regular Lovers também divide o ecrã com Louis Garrel. Outra das caras  já conhecida de outros filmes do realizador é Grégoire Leprince-Ringuet (Erwann), que tem um papel algo trágico em "La Belle Persone" e já neste filme tem um papel algo peculiar. Bem mais próximo do da personagem de Garrel; é algo irónico este "reencontro".

Este é um filme pungente em alguns aspectos e como acontece em outras obras de Christophe Honoré também bastante sexual, mas, neste caso em particular, sem descurar de uma pitada de humor. Todavia esses mesmos episódios revelam-se essenciais para a personagem principal, de Garrel, conseguir descobrir qual é a sua verdadeira essência. Alcançando assim a tranquilidade e equilíbrio e com isso a verdadeira felicidade ao descobrir o que é realmente o amor.

É um romance dramático, que é também um musical, mas que não cai no ridículo. Tem letras maravilhosas e que conseguem passar a mensagem exacta para fazer o espectador compreender o porquê da próxima cena .

Ao ver este filme apenas pensei como é impossível não ficarmos fascinados pelo universo de Honoré, por este mundo cinzento (Paris), que rapidamente vai ganhando cor e nos é apresentado em cada um dos seus filmes. E Les Chansons d'Amour não foge a essa regra. É, talvez, de todos os seus filmes o menos frio e devastador, aquele que nos revela um pouco de esperança de encontrar e ficar com o nosso verdadeiro amor sem ter de abrir mão dele. É um filme que se declara e deixa cair a máscara para enfrentar a realidade de que o amor vai muito além do sexo, nasce dentro de nós e torna-se, por vezes, impossível de controlar.

Crítica "TED":o gajo do Boogie Nights, uma história cliché e um urso fixe


Na América o humor é um género pouco digno, menos cuidado e que facilmente atinge níveis de javardice épicos. Já no Reino Unido a história é outra, temos filmes absolutamente divinas, com um humor incrível, assim como as famosas britcoms que fazem as delícias de miúdos e graúdos até os dias de hoje. 

Esta pequena introdução serve para vos mostrar como dificilmente um produtor made in USA consegue dinamizar o género comédia. Não é que não tentem, é mais porque é necessária uma certa classe para se chegar lá. E no filme que vos venho falar hoje até existe uma boa tentativa de chegar lá, mas rapidamente se perde quando se fecharmos os olhos temos, durante esse tempo, não um filme com um humor diferente, mas, sim, uma passagem da serie de Seth MacFarlane, Family Guy, para o grande ecrã. Não é que seja totalmente mau, aliás, o filme até brinca com essa evidencia, porém demonstra uma grande falta de criatividade por parte do seu criador. As vozes, as piadas e o registo da narrativa são exactamente iguais à da série. Sem tirar nem pôr, mesmo momentos de expor as piadas com passagens em que uma das personagens diz uma mentira e pensa no episódio real (que claro é o contrário do que afirmou) são exactamente as mesmas da série animada. Mesmo que tenham piada e consigam funcionar, de certa forma, acaba por ser quase um look-a-like entre "TED" e "Family Guy" do início ao fim do filme. Pode-se dizer que dá para entreter, e caso não conhecesse a série acharia mil vezes mais piada, podendo mesmo acreditar que estava perante uma nova forma de fazer humor. No entanto, a série existe, e as proximidades do filme com esta também: TED tem a voz do Peter, Mila Kunis faz a voz da Meg na série, mais MacFarlane que é o mesmo criador da série e filme.

Este é um dos momentos giros do filme, mas mais uma vez é-nos apresentado piadas sexuais muito próximas do que costumamos ver em Family Guy. Nomeadamente realizadas pela personagem Peter.
A história é gira, todavia é demasiado cliché. [SPOILER] O miúdo sozinho pede um desejo de ter um amigo para toda a vida, o desejo é concedido e aparece TED. Contudo, este um dia cresce e encontra o amor da sua vida, que faz pressão para este escolher entre TED e ela... O resto já devem imaginar como se desenvolve...

Quanto às prestações dos actores, Mark Wahlberg está bem como é de esperar e faz uma boa dupla com TED, Mila Kunis também consegue fazer o seu papel, mas de todos é talvez TED que brilha mais e tem mais piada dentro do elenco, o que é propositadamente provocado pelo misto entre sátira e momentos mais comovedores proporcionados pela personagem... Tem ainda mais uma cara conhecida, Joel McHale , de Community, que faz um papel próximo do que tem nesta série. O que não surpreende muito, diga-se.

Apesar de tudo, não desgostei do filme, mesmo não sendo nada de especial dentro do que já se conhece do género comédia, dá para passar um bom bocado e soltar umas gargalhadas. E o boneco que dá vida a TED é bastante engraçado, eu não me importava de ter um, confesso. Devo dar uma menção também à música contra-trovoada porque, vá lá, tenho de confessar, até tem a sua piada. 

Crítica:"Jeff, Who Lives at Home"



É difícil ver uma comédia dramática indie que não goste. Não sei bem explicar a razão, mas talvez seja pela maioria delas assentar em temas tão corriqueiros que nos fazem sentir compreendidos por alguém; mais não seja por quem escreveu o filme. O poder de reflexão deste tipo de películas consegue prender o pública e fazê-lo sentir familiarizado com o que visiona. É quase como uma ida ao psicólogo, só que neste caso é grátis e não precisamos de dizer grande coisa, apenas ver e sentir o que vislumbramos num ecrã.

"Jeff, Who Lives at Home" é mais um bom exemplo do que falei nas linhas acima. É um exercício de introspecção dividido em frames, que no seu conjunto contam uma história com um propósito moral: a ideia de que muitos de nós, mais dados ao pensar, temos constantemente de achar que a maioria das coisas acontece por uma razão, de que não estamos "aqui" só porque sim, de que há uma "missão", um objectivo reservado para a nossa existência. E Jeff (Jason Segel) é a personagem que nos mostra esta visão, visão essa que por muito esperançosa que seja acaba por ser uma espécie de entrave ao seu crescimento, ao seguir um rumo, ao ter "uma vida". O que leva também a um egocentrismo involuntário, pois, muitas vezes, o nosso papel não é esperar por algo que mude a nossa vida, mas, sim, ajudar os outros, o que de algum modo nos dá a conhecer um pouco mais de nós. Nos dá uma resposta para a nossa própria existência. Mas que não deixa de ter um lado também bom, se equilibrado, - o de ter o poder de acreditar e correr atrás do nosso destino. O engolir o orgulho e ver as coisas de um modo mais simplista, deixando de parte todo o sofrimento e complexidade a que nos sujeitamos só por medo, é também uma mensagem passada pela obra dos realizadores Jay Duplass e Mark Duplass. Às vezes, por muito que nos custe e pareça que não vá resultar, basta fazer a coisa certa, pois é a forma mais eficaz de solucionar um problema e reavermos a pessoa que amamos. É isto que o filme nos mostra. Perceber como a vida pode ser simples se tivermos coragem para fazer a coisa certa, antes que seja tarde demais.


Todavia, a película erra um pouco ao se dividir na vida de várias personagens, todas parentes, por acabar por não conseguir desenvolver o lado mais profundo de cada uma delas. O que leva a que apenas uma das histórias (que considero a menos interessante) tenha um desenvolvimento mais profundo, tirando um pouco o foco às restantes. No entanto, não erra por completo, pois no fim percebemos que todas se ligam, que há um propósito, mesmo que o caminho para chegar até lá não tenha sido muito bem desenhado. Sem grandes exageros ou deambulações, "Jeff, Who Lives at Home" acaba por seguir uma linha simples, mesmo que inclua três personagens centrais: Jeff, o seu irmão Pat (Ed Helms ) e a mãe de ambos, Sharon (Susan Sarandon).


A câmara pouco instável e típica do género indie (ou neoindie, que tem surgido nos últimos anos e tem caído na moda) parece também um pouco forçada. Sou bastante fã do género, como nunca escondi, mas neste filme percebemos que existe uma certa insistência, que desconcentra um pouco o espectador, em dar um toque um pouco próximo do documental da observação mais realista junto das personagens. 

Todavia, existem momentos bastante belos nas escolhas das imagens, algo mais fiel e puro ao que gostamos de sentir e ver - o que reforça o valor do filme. Por tudo isto, para aqueles que são fãs do género e gostaram de filmes como "Juno", "It´s a Kind of a Funny Story", "Our Idiot Brother" ou ainda "Win Win" recomendo vivamente a visualização deste filme.

Crítica:"La Belle Personne", de Christophe Honoré


"La belle personne", de Christophe Honoré ("Ma mère"), conta a história de um amor proibido, que nunca chega a acontecer. É um filme devastador, trágico e, ao mesmo tempo que é dramático, é cruamente real. 

O argumento roda em torno de uma rapariga de 16 anos, chamada Junie (Léa Seydoux). Ela muda de escola após a morte da sua mãe e, coincidentemente, fica na mesma que o seu primo. Devido à sua enorme beleza e peculiaridade, a rapariga rapidamente é cobiçada por muitos rapazes da escola. Mas de todos, é a Otto (Grégoire Leprince-Ringuet) que escolhe. Rapidamente começam a namorar, contudo, o que Junie está prestes a perceber é que o amor da sua vida é o seu professor de italiano, Nemours (Louis Garrel). Amor esse que gera um conjunto de acontecimentos, que se tornam bem trágicos...

Esta obra de Honoré, tal como já é de praxe, fala de amor e de desamores. Mostra o lado efémero dos sentimentos e, sobretudo, que é possível fugir àquilo que não estamos preparados para enfrentar, por muito doloroso que seja, é o melhor a fazer. Combater uma dor com outra dor, passa pela solução apresentada por este realizador que também é o responsável pelo argumento. Além de uma visão objectiva e sem eufemismos sobre a vida, o realizador de "Ma mère" brinda-nos com toques meticulosos bem aprazíveis, que se traduzem pela forma como Honoré usa um ambiente cru para subentender o objectivo da história, ou seja de não se tratar de uma história feliz nem hollywoodianamente romântica.

A escolha dos actores é sublime. Louis Garrel é um profissional muito talentoso, que em parceria com Honoré, tem conseguido provar, sem grandes dificuldades, o seu valor. Desde "The Dreamers" que fui seguindo a sua carreira - digo "desde" não no sentido cronológico da sua filmografia, mas, sim, da minha visualização de filmes -, uma vez que este foi o primeiro filme que vi deste actor. E a partir desse momento que o vi na grande tela, não fiquei fascinada com o seu charme ou beleza (algo que já vai acontecendo agora nos filmes de Honoré), mas com a sua performance, principalmente num papel tão controverso como aquele. Quanto a Léa Seydoux, confesso que só tive noção de que já a tinha visto em outros filmes depois de uma pequena pesquisa. Embora seja uma boa actriz, a verdade é que a caracterização (cabelo preto, geralmente é loira ou cabelo claro - como em "Inglourious Basterds", de Tarantino) não facilitou a sua identificação. No entanto, é inegável a química entre a dupla de actores. Mesmo não havendo grandes momentos expressamente sexuais ao longo do filme, Junie e Nemours conseguem expressar ao público a intensidade, o calor e a tentação do que sentem. Sem muitas palavras ou aproximação física, o que torna o filme ainda mais fascinante e bem conseguido.

Crítica a TDKR: O Adeus ao Morcego.

(Esta crítica contem alguns spoilers)
Pode não ser um filme perfeito e nem de perto se igualar ao segundo da trilogia do morcego, realizado por Nolan, mas certamente The Dark Knight Rises não deixou nenhum dos seus espectadores indiferente. A premissa segue os pontos fulcrais de uma intriga de super-heróis, como já havia acontecido nos anteriores, porém apresenta um conjunto de reflexões dignas de serem relembradas. Temos várias problemáticas em análise: a dificuldade de se ultrapassar um desgosto; de seguir em frente com a vida, de deixar o passado e encarar o presente; de tomarmos “ideias” como realidades e adiarmos um futuro melhor que, por vezes, por culpabilização ou simples tristeza, achamos que não merecemos viver. A luta entre o bem e o mal também faz a sua aparição ao longo do filme. São várias as personagens que lhe dão corpo. No entanto, Selena Kyle é talvez a que melhor a personaliza. Não directamente, porque não se auto-denomina assim, ela é Catwoman. Neste ponto, talvez o excesso de “realismo” dado ao “mundo de Nolan” deixe para trás o passado que tornou esta personagem mítica, e a mostre de um modo mais realista: como uma ladra com bastante agilidade. Talvez seja isso mesmo que o realizador propõe, a sua humanização: que seja apenas alguém que fez as escolhas erradas, mas que espera ter uma segunda oportunidade na vida para ser melhor. É bem possível. Mas a personagem tem uma importância bem maior. É aqui também que o factor confiança e esperança entram. É aqui que vemos Bruce Wayne a renascer das cinzas, após a morte da sua anterior amada e a voltar “a acreditar”. Esta mistura entre o lado obscuro e o lado bom remetem-nos um pouco para a dicotomia pela qual todos passamos: a de tomar a decisão certa. A de vencer obstáculos não físicos, que se alojam na nossa mente e coração. E não é por acaso que cada uma das personagens do filme tem uma função de demonstrar isso mesmo. 

Em TDKR, Christopher Nolan deslumbra-nos, mais uma vez, com um elenco delicioso de actores: desde a presença óbvia de Christian Bale (Bruce Wayne), a Marion Cottilard (Miranda), a Tom Hardy (Bane) e ainda ao talentoso Joseph Gordon-Levitt (Blake). Temos, no entanto, na pele de Selina Kyle, uma outra aquisição feminina, Anne Hathaway, da qual não sou grande fã, mas que confesso ter conseguido apreciar a sua prestação no decorrer do filme. Não conseguirá, pelo menos no meu imaginário, tirar o lugar à merecidíssima Michelle Pfeiffer, todavia não está de todo mal. É de salientar ainda a performance de JGL, que a cada filme parece melhor; é um actor em ascensão!


Contudo, o filme está longe de ter acertado por completo na receita. Mais alguns momentos seriam precisos para intensificar a química entre algumas personagens. Como a relação entre Wayne e Selina. Do mesmo modo que acredito, que ainda fosse mais essencial, esse tempo, para o romance que acaba por ser rápido demais, entre Wayne e Miranda.  Existem também algumas pontas soltas. Mas o filme é tão envolvente que apenas após ultrapassar a porta da sala é que consegui pensar nelas. No entanto, realmente existem, pois ficamos sem uma justificação para a força e tamanho de Bane. Sem saber como é que Selina tem aquela destreza, sem saber como após três meses dos polícias estarem presos debaixo da terra conseguiram sair com um aspecto tão "limpo" e nada devastado.

O que poderá deixar um pouco de decepção é o vilão escolhido. Começa bastante bem, prolonga a sua acção igualmente bem, mas no final não consegue dar aquele abanam, nem nos tirar o chão, como a personagem de Heath Ledger conseguiu com Joker. Não é justo fazer comparações, pois Tom Hardy faz um excelente papel como Bane, contudo o confronto final é esbatido por uma revelação que acaba por ofuscar a missão que achávamos ter primordialmente esta personagem. 

Ao longo do filme, temos muito suspense, acção e caos – como já é hábito. Temos do início ao fim uma simbiose de sentimentos impressa na grande tela, que atravessa o público como uma flecha. Não é uma obra-prima, não é o derradeiro da “trilogia”, não é, talvez, o final que todos esperaram, mas a meu ver consegue cumprir a sua missão: deixar o público de barriga cheia, hipnotizado, a ter uma espécie de avc sempre que surge um momento de tensão na narrativa. Por muito que lhe sejam apontados defeitos, é impossível negar o poder que este realizador tem sobre nós no que toca a contar histórias. E mais ainda: fazer de um blockbuster um filme com este nível artístico. Algo que a maioria dos seus colegas de profissão não consegue fazer com os filmes do mesmo género. A adaptação realista da bd ao mundo que conhecemos é um trunfo que desde Batman Begins, Christopher Nolan tem conseguido executar na perfeição e consequentemente revolucionado o conceito usado para dar vida às histórias que vem dos quadradinhos. É um mundo de ficção que ganha um significado inegável aos nossos olhos quando adaptado aquilo que conhecemos, tendo sempre por trás uma moral, que dá muito que pensar. Em suma, por tudo isto e muito mais, que poderão por vocês mesmos vivenciar se virem o filme, temos um trabalho merecedor de ser assinado por Nolan. Há momentos de arrepiar, que fazem com que público subitamente se cale e fique atento, se maravilhe. Sentimos uma aura inegável intrínseca a cada cena. Um jogo entre o espectador e o que virá a seguir. Desde as explosões, aos equipamentos tecnológicos, cidade e lutas, TDKR prende-nos e entretém-nos durante quase três horas sem aborrecer. Com direito ainda a twist e muitas revelações implícitas, mas que dão ao espectador o sentimento de que vale a pena o seu visionamento. 


Duvido que algum dos presentes não se tenha emocionado uma vez que seja. Não tenha abanado a perna com os nervos enquanto esperava pela próxima cena. Não tenha desesperado durante os sete minutos de intervalo para voltar ao filme. Não tenha ficado absorvido pro toda aquela intensidade que marcou a saga de Batman, de Nolan. 

Como disse no início deste texto, pode não ser o final que todos esperavam, todavia no fim de TDKR a vontade de bater palmas aquele espectáculo visual, pelo menos para mim, foi inegavelmente muito grande. O filme em si consegue pôr um ponto final digno à saga: com o fim de um herói e o início de um novo. Portanto, resta-me dizer um adeus ao morcego, que deixará, entre os fãs pelo menos, uma eterna saudade.



Nota: A passagem a negrito foi introduzida posteriormente nesta crítica. Aos que já a leram, fica aqui assinalado, para não estranharem esta nova informação.

Spider-Man: Adeus Tobey, Bem-vindo Garfield!

Com o reboot de Spider-Man, realizado por Marc Webb, ao mesmo tempo que se inicia uma nova saga termina também uma antiga, que viu a luz do dia há já dez anos, assinada por Sam Raimi. Para os fãs da BD do aranhiço e da série animada - tanto dos anos 60 como mais tarde de 90 -, esta nova oportunidade para ver o super-herói no grande ecrã é o culminar de todos os desejos de ver uma adaptação muito mais autentica, do que a anterior, e um actor com um perfil bem mais próximo do desastrado e sarcástico Peter Parker. Esta dupla face da personagem, ora inicialmente totó e depois com um grande progresso a nível de coolness, foi o que matou e enterrou a sete palmos de terra a personagem encarnada por Tobey Maguire.


Vemos um primeiro homem-aranha em 2002. Este conquistou uma aprumada escala de fãs, que na sua maioria deixaram à revelia as preocupações com a similaridade do filme com a BD. Dois anos depois, em 2004, somos confrontados com um Spider-Man 2. Sendo este para alguns considerado o melhor filme da trilogia de Sam Raimi; o que não é o meu caso. Mas o derradeiro momento que levou a criação com a cara de Tobey Maguire a ser considerada fraca e de mau gosto, falo por mim e por grande parte dos apreciadores dos filmes do género, foi o seu terceiro e último produto - Spider-Man 3. Assistimos a uma performance ridícula da personagem e actor, com deixas ainda piores e uma premissa que passa pelo parvo e se afunda cada vez mais até ao fim do filme. Entre danças que apenas nos levam a ter pensamentos duvidosos da sexualidade do super-herói, em vez de nos fazerem temer pelo lado obscuro que domina Peter Parker, assim como a uma personagem mil vezes mais não cool e cada vez mais próxima de um emo, é isto que vemos no terceiro filme de Raimi. E é neste mesmo que temos uma grande vontade de ter levado o Raid para a sala de cinema  a fim de matar aquela personagem para todo o sempre, de modo a afastá-la das nossas memórias mais queridas do Spidey. Que no meu caso começaram com a série animada homónima, enquanto ainda eu estava a matar tempo a ver desenhos animados para fugir aos trabalhos de casa da primária.



Um dos factos que matou a primeira saga do aracnídeo mais famoso da história foi ainda a falta de profundidade das suas personagens e química. Temos personagens a mais num elenco que pouco tem a acrescentar à história: temos uma Mary Jane submissa como uma donzela que espera em coma ser resgatada pelo super herói (sem grande dimensão psicológica), temos um Peter Parker que pouco lhe importa para além de salvar a rapariga e ser um super-herói, sem grandes questões, crises existenciais ou reflexões sobre as suas origens ou situação - tenta ser dramático sem sequer ter os ingredientes que lhe poderiam permitir isso, e temos uma história muito longe da original. É apenas mais um filme de super-heróis.


No entanto, muito contrariamente ao que a maioria pensou ver por se tratar de um reboot, The Amazing Spider-Man consegue superar a anterior trilogia de Sam Raimi. Consegue-o fazer de uma forma brilhante e admirável. Cria uma história totalmente nova, mas apoiando-se na história original dos livros aos quadradinhos. Dá assim aos verdadeiros fãs do Aranha este presente, que se concretiza na perfeição graças ao seu excelente cast - que conta com Andrew Garfield, Emma Stone e Rhys Ifans. Este último, quem não está a reconhecer o nome do actor, pode abrir a caixinha de memória e identificá-lo em Nothing Hill por exemplo, cuja personagem é do menos convencional e formal que podemos imaginar. Mas que em The Amazing Spider-Man consegue assim se camuflar de Dr. Curt Connors e posteriormente de Lizzard. É uma verdadeira transformação.


 Embora ache que o CGI no que toca à composição da personagem de Lizzard ficou um pouco aquém e destoante do restante cenário, todavia é difícil adaptar um ser assim para o live action. De ressalvar é ainda o talento de Garfield e Stone que dão corpo e alma às respectivas personagens de Peter Parker e Gwen Stacy, que é facilitado pela química que partilham. Martin Sheen tamém dá um magnifico tio Ben e Denis Leary (conhecido principalmente pela série Rescue Me) faz na perfeição o papel de agente da lei.

Este reboot de Marc Webb é superior à obra de Raimi por conseguir fazer mais em menos tempo. Isto é, em três filmes o realizador da primeira trilogia defraudou o Aranha. Pioraram as interpretações, argumento e personagens escolhidas para integrar os filmes. Enquanto, já no primeiro, Webber aposta num forte cast, que só tem meios de evoluir, jovem, talentoso e cheio, e isto é um dos elementos mais importantes, de carisma. Peter Parker, para os eternos fãs da personagem, será sempre relembrado como o desastrado, mas sarcástico adolescente que do nada vê a sua vida mudar, mas que percebe que não pode usufruir desses poderes para seu benefício, pois poria em risco todas as pessoas que gosta. E, por isso, um pouco sem inicialmente perceber bem ao que levaria a sua acção, começa a actuar como justiceiro e a combater o mal, sendo que mais tarde percebe que isso pode ser bem mais complicado. Tanto a personagem de Peter como de Gwen são extremamente ricas e com várias dimensões no que toca ao psicológico. Não existem personagens-tipo como no anterior, existem pessoas e uma história bem elaborada e credível num mundo de ficção que ganha vida aos olhos dos seus espectadores. Os efeitos de CGI muito valeram para a composição de todo o cenário da cidade e peripécias do super-herói. A banda-sonora não é extraordinária, porém consegue deixar a imagem fluir e isso é o mais importante. Como sabem, Marc Webb tem um grande cuidado com a imagem, julgando principalmente pelos seus anteriores trabalhos na música e no indie 500 Days of Summer.

Em The Amazing Spider-Man são deixadas muitas pontas soltas, mas que irão certamente ter uma resposta nos próximos dois filmes. Tentaremos perceber quem seria a pessoa que estava a morrer, como a dupla faceta, ou seu alter-ego, de Dr. Connors irá se portar daqui para a frente, como o romance entre as personagens vai desenvolver-se, como Peter lidará com o peso da morte do seu tio e as questões de ordem parental, e, sobretudo, como conseguirá lidar com a sua vida oculta de herói e com a de adolescente.

Depois de tudo isto, é caso para dizer: que venham de lá mais esses dois filmes, que por cá, garanto ir ao cinema ver mais duas aventuras da nostálgica personagem de Spidey.


Crítica: American Pie - The Reunion

A última fatia costuma ser a melhor porque temos consciência que é preciso saboreá-la como deve ser e porque nunca mais sentiremos aquele gosto particularmente bom, mesmo que se tente repetir a receita, os ingredientes nunca mais serão exactamente os mesmos e parecendo que não isso faz uma enorme diferença. E é também assim que se comporta a saga que fez rir miúdos, menos miúdos e até graúdos ao longo de 13 anos de existência e que chega, ao que parece, ao fim com o filme "American Pie: The Reunion", que está neste momento nos cinemas de todo o país.

"American Pie" foi o "Porkys" da minha geração, uma geração que foi adolescente ao longo do ano 2000. Uma geração que cresceu com o nascer das novas tecnologias - seja a internet ou o telemóvel - e que conseguiu substituir os bailes dos anos 90 por megafestas épicas acabadas em ' 00, onde as boas-vindas e os adeus eram dados por álcool, drogas e muito sexo frotuito. As próximas gerações hipsters que virem estes filmes vão provávelmente estranhar a falta de "cultura" e de "wanna be", mas a verdade é que estes foram os tempos em que a minha geração cresceu e por muito "parolos" que pareçam, agora, aquilo que começou em 1999, continuo a dar graças a deus por ter crescido neles. Mas deixando a reflexão pessoal, que nos lembra por um lado que envelhecemos e por outro que nunca é tarde demais para nos divertirmos, continuemos a falar do filme. "American Pie: The Reunion" consegue juntar de novo o cast inicial da série. Temos de volta a personagem Oz, que havia desaparecido no terceiro filme, "American Pie: The Wedding", sem nenhuma explicação plausível. Agora retorna e percebemos que a sua vida deu muitas voltas, assim como a das restantes personagens não ficando pontas soltas. Temos todos os ingredientes em cima da mesa para finalizar a tarte mais famosa da América. E mais importante de tudo, cada pista deixada desde o início tem razão de ser. Para não deixar spoilers, não vou revelar quais são as várias conclusões que este filme nos traz, mas aconselho vivamente que o vejam para as perceberem porque realmente vale a pena.
Um dos promenores mais importantes neste teen movie é que cada uma das personagens tem também um psicológico. Normalmente nas comédias de adolescentes isso fica para um segundo plano, só pra decor, nada de muito profundo, em American Pie, no meio da rambóia, mesmo sendo "personagens-tipo", conseguimos perceber que cada personagem tem uma razão de ser.

O Stifler representa o típico gajo cool, cujo seu auge foi os tempos de liceu, mas que nem por isso deixa de ter bom coração e de fazer tudo pelos amigos- vêmos isso ao longo dos 3 filmes que antecedem este último -, possívelmente a falta de um elemento masculino como exemplo fez com que fosse tão destrutivo com as mulheres, mas isso já são outras histórias, ou não existisse a Stifler's Mom - comecei pelo Steve Stifler porque é a minha personagem preferida. Paul Finch tinha de vir logo depois, sim, é uma piada da minha parte, porque como sabem ele e o Stifler têm uma grande ligação, que possibilitou que a palavra MILF entrasse nos nossos vocabulários desde ' 99.

 Finch representa o esquesitóide. O potencial hipster e tipo fixe se a história se passasse hoje e não há mais de uma década. Tem uma grande cultura geral, sabe latim e não se senta em qualquer sanita. É a seguir de Stifler talvez o elemento mais inesquecivel da saga. Que acaba por deixar as manias, cresce, e também encontra o verdadeiro amor, deixando o fetiche Stifler.

O Kevin é o mais baixo e talvez menos emblemático personagem. Mas é devido a este que conhecemos o livro sexual deixado pelo seu irmão e que contribui bastante para o enredo do primeiro e segundo filme. É também a única personagem que surge já com namorada - Vichy -  e que fica posteriormente sem ela, mas que percebe que é importante gostar de quem temos ao lado. Irónicamente, neste último American Pie, é o que prova que estava destinado desde o ínicio a uma relação, meso que o tenha tentado contrariar. É também o tipo que ao longo de todos os filmes da saga faz o discurso-chave dos pactos e das conclusões. É de um certo modo aquele que tece as morais e que dá ao espectador a ideia fundamental de cada filme.

Oz é ao lado de Kevin a personagem menos popular da saga. Talvez por isso ou por outros projectos tenha acabado por ser suprimido do argumento de American Pie: The Wedding. É o tipico desportista, mas que é sensível demais e não tem jeito nenhum com as mulheres porque tenta ser um Stiffler, mas não consegue. Percebe depois que o que precisa é de encontrar a pessoa certa, mas percebemos depois que acabou por a perder, por ambicionar outras coisas materiais. É talvez a personagem com mais dilemas e que acaba no último filme por se tornar o que Stifler sempre quis e por não o querer ser. E quantas pessoas não conhecemos assim? É verdade. Embora mais secundária também tem um propósito este "Casanova". A esta personagem liga-se Heather.

O Jim representa o rapaz desastrado e totó do grupo, que apenas tem jeito para ter amigos rapazes e pouco mais, com as mulheres é o que se sabe e daí a obsessão pelo sexo (não com mulheres mas com tartes, meias, cola ?!...etc) com coisas aleatórias semelhantes a mulheres, e não estas, pela falta de coragem em interagir com as mesmas, mesmo que irónicamente tenha nádia, a supertouraestrangeiraawesome que qualquer gajo desejaria. Mas a personagem de Jim é o protagonista, penso que tudo roda à volta da mesma sempre, representa o gajo que no fim consegue perceber que existem coisas bem mais importantes que sexo, o amor, que pode não ser perfeito, mas que sabe tão bem que vale a pena passar pelos momentos menos bons. Esta é a personagem que liga todas as outras e que faz com que a saga adiquira um sentido quase de "fellows" na busca de algo superior que nem mesmo as personagens sabem bem o que é. A esta personagem temos inerentes o grupo de amigos, Nadia, ainda Michelle e o Jim's Dad ou Noah Levenstein e as novas que veremos no último filme. Essa mesma busca tem tanto significado porque em grande parte foi a mesma que os telespectadores que acompanharam os quatro American Pies fizeram.

A todos os que ainda não viram "American Pie: The Reunion" garanto-vos que vale a pena ver. Durante a cerca de hora e meia consegui rir sem parar, sem a história perder o sentido e sem grandes malabarismos por parte do argumento, apenas a mesma dose de humor que consegue rivalizar com o do primeiro filme. Valeu a pena esperar 10 anos, asseguro-vos, mas também asseguro que depois de tantas vezes ver a saga nem senti pelo tempo passar, porque estas serão sempre personagens que farão parte da minha vida, mesmo que este género de filmes não seja uma obra de arte, é na mesma um importante marco a não esquecer no mundo da comédia teen. E esta sequela final conseguiu corresponder às minhas espectativas e ser tudo o que poderia imaginar para o desfecho de uma história com mais de 10 anos. O que hoje em dia é quase um milagre.


Sobre a saga e o filme existem alguns pontos curiosos a esclarecer. O nome American Pie advem da cena em que Jim tenta ter relações com uma tarte de maça, no primeiro filme, por os amigos descreverem a sobremesa como o mais próximo de uma vagina. A cidade onde se passa o filme é fictícia, no entanto é inspirada na mesma cidade onde cresceu o argumentista Adam Herz, em East Grand Rapids, no Michigan. O termo MILF foi popularizado por todo o mundo com a série. E a personagem do pai do Jim é importante porque na altura os pais pensavam que tentar falar de sexo era realmente uma forma de estabelecer laços com os filhos, no entanto a forma de abordagem nunca era a mais indicada.